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Sérgio Quintiliano, o Minotauro | A vida de luxo e as farsas do chefe do PCC que levou o terror ao Paraguai

Sérgio Quintiliano, o Minotauro | A vida de luxo e as farsas do chefe do PCC que levou o terror ao Paraguai

Diarista, governanta, massagista e um piloto de aeronaves faziam, segundo investigações da Polícia Federal, parte do estafe de Sérgio de Arruda Quintiliano Neto, 36, o Minotauro, o homem escalado pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) para impor o terror e acirrar a guerra pelo controle do narcotráfico na fronteira do Brasil com Paraguai.

Minotauro morava com a mulher, uma advogada de 40 anos, na cobertura do edifício Marina Beach Towers, em Balneário Camboriú, em Santa Catarina. O aluguel era de R$ 10 mil mensais, mas ele pagou R$ 130 mil adiantados por um ano de locação do imóvel.

Em 4 de fevereiro de 2019, quando foi preso pela Polícia Federal, os agentes apreenderam um relógio Audemars Piguet avaliado em 61.200 euros (R$ 406.637 na cotação de ontem) e outro da mesma marca no valor de US$ 100.300 (cerca de R$ 548 mil).

Foram encontrados ainda R$ 31.915, US$ 105.200 (R$ 575 mil na cotação de ontem) e 48 peças de joias, pesando 1,087 kg. Na garagem estava estacionada uma BMW adquirida por R$ 167 mil. O veículo importado foi comprado em nome da diarista de Minotauro.

Carro de luxo foi apreendido na operação em que Minotauro foi preso - Divulgação - 4.fev.2019/PF - Divulgação - 4.fev.2019/PF
Carro de luxo foi apreendido na operação em que Minotauro foi preso
Imagem: Divulgação - 4.fev.2019/PF

No cofre do imóvel havia um contrato de aluguel do hangar 90 do condomínio aeronáutico Costa Esmeralda, em Porto Belo, Santa Catarina. Era lá que Minotauro embarcava em aeronaves para viagens a Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, fronteira com Pedro Juan Caballero, no Paraguai, para tratar de negócios do narcotráfico.

Em uma pasta azul, guardava projetos arquitetônicos de construções de dois hangares em Ponta Porã. No telefone celular de Minotauro, os federais encontraram as provas que procuravam para incriminá-lo por tráfico internacional de drogas.

Smartphones e dinheiro vivo foram apreendidos pela Polícia Federal - Divulgação/PF - Divulgação/PF
Smartphones e dinheiro vivo foram apreendidos pela Polícia Federal
Imagem: Divulgação/PF

Eram planilhas que indicavam pagamentos feitos para o acusado no valor de 15,8 milhões de euros (R$ 104,8 milhões) pelas remessas de cocaína da Bolívia e Peru para narcotraficantes da Europa no período de 16 de novembro de 2018 a 4 de janeiro de 2019.

No notebook havia referência à compra de fazendas em terras paraguaias e também valores sobre pagamentos de propinas a policiais e agentes na fronteira dos dois países.

Os federais descobriram ainda que Minotauro pagou R$ 23 mil pelo aluguel de uma lancha para comemorar com amigos o aniversário da mulher em Santa Catarina.

Segundo o MP-SP (Ministério Público do Estado de São Paulo), Minotauro ingressou no PCC em 2005, quando tentou matar um coronel da Polícia Militar em Hortolândia, na região de Campinas (SP).

Em julho de 2006, aos 21 anos, foi preso em uma chácara na cidade de Panorama (SP) com outros oito criminosos. Dois meses antes, havia sido recrutado pelo PCC para participar dos ataques às forças de segurança em São Paulo, no episódio conhecido como "Crimes de Maio".

Minotauro deixou a prisão em 2009 e nas penitenciárias da região oeste do Estado conquistou a confiança da alta cúpula do PCC. Em 2012 foi processado duas vezes por tráfico de drogas pela Justiça de Bauru e passou à condição de procurado pela Justiça. Por causa disso, fugiu para o Paraguai.

A missão de Minotauro no país vizinho era ajudar o PCC a ter a hegemonia do tráfico de drogas na fronteira. O criminoso vivia com nome falso. Conseguiu tirar em um posto de identificação de Ponta Porã documentos em nome de um bebê que havia morrido três dias após o nascimento.

A violência no Paraguai só aumentou após a chegada de Minotauro. Ele foi acusado de ser o mentor intelectual dos assassinatos de um policial que o investigava e de uma advogada, um administrador e um tio do rival Jarvis Pavão, até então considerado o "barão da droga na fronteira".

Caçado por policiais de Pedro Juan Caballero e Ponta Porã, Minotauro fugiu para Santa Catarina em 2018. No mesmo período foi condenado a 20 anos pelos dois processos por tráfico em Bauru. E ainda teve o nome incluído na difusão vermelha da Interpol, a polícia internacional.

Com a ajuda de policiais corruptos novamente teve acesso a documentos falsos. Dessa vez tirou RG, CPF, título de eleitor, certificado de reservista, passaporte e até documento de habilitação para conduzir pequenas embarcações de recreio.

Com a nova documentação conseguiu alugar a cobertura no Balneário Camboriú. Em setembro de 2020, a Justiça Federal em Ponta Porã condenou o integrante do PCC a 40 anos de prisão pelos crimes de falsidade ideológica, organização criminosa transnacional e corrupção de agentes públicos.

Dois dias depois de ser preso, Minotauro foi transferido de Santa Catarina para a Penitenciária Federal de Brasília, onde está recolhida a cúpula do PCC, inclusive Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado pelo MP-SP como líder máximo da organização.

Mesmo com a prisão de Minotauro, a violência não diminuiu na região da fronteira. Somente no ano passado 109 pessoas foram mortas na guerra pelo controle do tráfico de drogas na região.

A mulher de Minotauro foi condenada a 20 anos pelos crimes de organização criminosa transnacional e corrupção de agentes públicos. Ela está presa na Penitenciária Feminina de Sant'Anna, no Carandiru, zona norte de São Paulo.

O UOL entrou em contato com advogados do casal, mas eles não quiseram se manifestar.