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Será que é uma boa ideia? | Por que carros de luxo estão vindo sem estepe e o que isso causa no Brasil

Será que é uma boa ideia? | Por que carros de luxo estão vindo sem estepe e o que isso causa no Brasil

Os pneus run flat, que podem rodar por alguns quilômetros sem ar comprimido, já viraram moda na Europa há mais de uma década, especialmente no segmento de carros de luxo. Agora, as montadoras de modelos premium estão adotando quase integralmente essa solução. Consequentemente, abandonando de vez o estepe.

Isso está gerando um problemão para as marcas de carros de luxo no Brasil. A razão? Não ter estepe em território nacional simplesmente não funciona, e você entenderá isso melhor abaixo.

Como os estepes estão ficando obsoletos na Europa, as marcas de luxo pararam de se preocupar com o planejamento do porta-malas considerando a alocação do componente. Então, mesmo que uma montadora decida, no Brasil, não adotar os pneus run flat - o que muitas vezes ocorre -, não há espaço para colocar o sobressalente.

Com os pneus run flat, dá para rodar, no geral, até 80 km, a velocidade máxima de 80 km/h, com o componente sem ar. Isso é bem prático no caso de um furo, pois permite que o motorista chegue até uma oficina para fazer reparo sem ter necessidade de efetuar a sempre inconveniente troca.

Mas estamos falando de Brasil. E aqui, principalmente fora do Estado de São Paulo, as estradas não são das melhores. Pisos irregulares, remendos e buracos são constantes. As condições não se comparam às das bem conservadas rodovias europeias.

É bem comum essas condições desfavoráveis acabarem gerando não furos, e sim rasgos nos pneus. Nesse caso, o que fazer sem estepe? Não há outra solução, se não chamar o guincho.

Mas e quem está viajando? Nessas situações, o incidente pode ocorrer longe de uma grande cidade, onde as concessionárias de marcas de luxo são mais comuns. Ou em locais com sinal de celular oscilante, ou inexistente - o que não é raro nas estradas, nem mesmo nas de São Paulo.

Situações assim podem ser caóticas para quem está dirigindo um veículo, e poderiam ser facilmente contornáveis com a presença de um estepe. Mesmo que ele seja de uso temporário. Estes, como os pneus run flat, no geral podem rodar por 80 km, a até 80 km/h. Mas, pelo menos, sem furos nem rasgos.

Exemplos práticos

Fui gravar uma série de vídeos na Serra da Mantiqueira com um utilitário-esportivo de luxo. Precisamos passar por uma leve estrada de terra, dessas sem nenhuma dificuldade, que poderia ser vencida até por um Chevrolet Onix.

A diferença? O Onix tem estepe. O SUV de luxo não tinha. Era só um kit de reparos para os pneus. Mas, para azar de nossa equipe, havia uma pedra no meio do caminho. O pneu rasgou, e foi totalmente danificado. Não dava mais para rodar.

O resultado? Entre o incidente e o momento em que conseguimos retornar ao hotel, foram 12 horas. Não havia sinal de celular. Precisamos encontrar o alto de um morro para conseguir falar com a seguradora. O problema é que estava difícil enviar a localização precisa, algo que conseguimos por meio de serviços na internet e algumas referências.

Ainda assim, o pessoal do resgate não conseguiu encontrar o local com facilidade. E tínhamos de nos alternar entre o local, para monitorar a chegada do guincho, e o alto do morro, para falar com a seguradora.

O carro foi guinchado e não havia pneu a pronta entrega em nenhuma concessionária, nem mesmo as de São Paulo. Recebemos um outro veículo, e só assim conseguimos continuar realizando a produção. Mas isso graças à interferência da própria montadora, proprietária do carro.

A colega Karina Simões, também jornalista especializada em carros, mostrou uma situação semelhante em seu Instagram. Ela estava viajando de São Paulo a Santa Catarina. Na estrada, acabou passando por um buraco. O pneu rasgou.

Ela até tentou prosseguir com o pneu run flat sem ar por alguns quilômetros, mas ele acabou rasgando mais, e rodar ficou inviável. Curitiba, a cidade mais próxima com uma concessionária BMW disponível, estava a 140 km do local em que o incidente ocorreu, e a 90 km de onde parou o carro, após conseguir trafegar por 50 km (a 50 km/h).

Ao parar o carro, foi informada pelo serviço de assistência da marca que, como era sexta-feira, e as concessionárias só reabririam na segunda, o carro iria de guinho até uma revenda. Para ela, seria providenciado um táxi, que a levaria de volta a seu local de origem, São Paulo.

A solução não resolveu o problema. Ela precisava prosseguir viagem até Santa Catarina, onde tinha compromisso. Precisava mesmo era de um pneu novo para o carro, na ausência do estepe.

Após horas aguardando um guincho, acabou encontrando no dia seguinte, em uma concessionária em Curitiba, um pneu compatível com o carro, em uma autorizada da marca. Mas precisou da ajuda da fabricante, que é a proprietária do carro.

O que as marcas estão fazendo

O novo BMW Série 3 vem com um compartimento para alocar um estepe - que não está disponível na versão híbrida 330e. No entanto, ao usar essa solução, perde-se boa parte da capacidade do porta-malas.

O bagageiro fica com pouco mais de 300 litros, ante os cerca de 500 litros originais. Outros carros da marca também trazem essa solução, a exemplo do M235i. Mas, no caso desse modelo, apesar de o espaço para o estepe já disponível, o pneu sobressalente é vendido à parte.

A Porsche oferece o estepe como item de série para alguns modelos, como a Panamera Sport Turismo. A perua não usa pneus run flat no Brasil, e o pneu sobressalente oferecido tem o mesmo tamanho dos demais.

Ótima solução? Seria. O problema é que, como não há espaço planejado para esse pneu sobressalente, ele ocupa toda a capacidade do porta-malas. Não sobra quase nenhum espaço para bagagem, o que tira totalmente o propósito de uma perua - modelo que, na Porsche, é esportivo, mas tem também um apelo familiar.

Como alternativa, a Porsche vende um kit de reparos para a Panamera nas concessionárias. O cliente pode, em uma viagem, abrir mão do estepe em prol da bagagem. Só que esse kit também só funciona para furos. E aí: levar bagagem ou levar o estepe?

Oferecer kit de reparos, aliás, tem sido a solução de quase todas as marcas que não têm mais estepe como item de série, por usarem pneus run flat. Nem espaço para alocá-lo.

E, como o Brasil tem pouquíssima representatividade no mercado de carros de luxo, fica difícil imaginar que uma montadora pensará nessa peculiaridade do País na hora de desenvolver seu produto. Como resolver essa questão?