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Kelly Fernandes | Como transporte público reflete segregação racial nas cidades

Kelly Fernandes | Como transporte público reflete segregação racial nas cidades

Uma viagem mais longa, usando ônibus, trem ou metrô, pode ajudar na compreensão do que é segregação racial. Mas, para entender isso, é preciso começar a viagem em um dos extremos - não importa a direção, se é do centro para a periferia ou da periferia para o centro, pois só mudará o sentido da transição.

Ao longo da viagem, diversas mudanças na paisagem podem ser percebidas a cada estação ou ponto de parada, a partir de alterações nos padrões das casas construídas, prédios e mesmos das vias. Também nas pessoas, com a variação de cores, cabelos, vestimenta e feições, que podem aparentar mais ou menos cansaço - adquirido ao longo do dia ou da vida.

Independente de qual for a cidade, é possível notar como a cor da pele das pessoas escurece ou embranquece a cada sobe e desce, tornando-se mais negra, portanto preta e parda, a medida que nos aproximamos cada vez mais dos extremos da cidade - ponto de partida social comum para inúmeras pessoas que, historicamente, tiveram em seu caminho empecilhos à inserção socioeconômica, o que comprometeu suas condições de ascensão, de acesso à justiça e à seguridade social e aos bens e serviços públicos essenciais.

Quando a distância é tão grande que não é possível vencê-la usando apenas um sistema, e é preciso pegar um ônibus, depois o trem, depois o metrô, e, às vezes, saltar de uma linha para outra, identificadas por números ou cores, é possível perceber mudanças adicionais.

Ao mudar de um meio de transporte para outro, a quantidade de informações disponíveis, a qualidade e frequência dos ônibus, a limpeza e outros aspectos podem mudar, para melhor ou pior. No geral, quanto mais distantes das áreas centrais ou com maior vitalidade econômica, menor é qualidade desses sistemas.

Esse contraste não fica restrito ao sistema de transporte coletivo, pois se espalha por calçadas, ciclovias, rede de iluminação pública, arborização e demais serviços ou infraestruturas de mobilidade, que são aspectos da desigualdade social.

Distritos nas periferias das cidades são locais onde a maior parte da população negra mora. Segundo a Pesquisa Viver em São Paulo: Relações Raciais, em distritos com população com renda mais alta, o percentual de pessoas negras residente pode ser inferior a 6%. Já em distritos periféricos e com renda menor, esse percentual sobe para mais de 60%.

Mas é preciso ir além da classe social para discutir os efeitos do racismo na mobilidade de pessoas negras. O sociólogo Danilo França explica que a distância entre populações negras e brancas não pode ser explicada somente pela perspectiva da classe social. Segundo o pesquisador, a condição histórica dos negros têm como tendência um ponto de partida social "mais baixo" do que os brancos.

Mesmo quando pessoas ascendem socialmente, as barreiras crescem exponencialmente, a discriminação se torna maior e mais evidente, de forma que ela se confude menos com a questão de classe.

De acordo com França, "pessoas negras que tenham tido acessão social tendem a morar próximas aos bairros de origem, mas em áreas com padrões de oferta de serviços e infraestruturas melhores, provavelmente para se manter perto da família ou pessoas que cultivem laços - comunidade de referência".

O pesquisador ainda relata que, durante a construção de sua pesquisas, fez entrevistas com pessoas negras e perguntou: "se você tivesse recursos ilimitados para morar em qualquer lugar da Região Metropolitana de São Paulo, onde você moraria?". As respostas raramente indicavam bairros tradicionais onde mora a classe média, no centro expandido ou quadrante sudoeste da cidade.

O pesquisador termina a entrevista dada para a coluna alertando que é preciso iluminar as dificuldades enfrentadas por pessoas negras na mobilidade urbana.

A falta de dados é o principal desafio, com destaque para a ausência da coleta de informações sobre raça/cor na Pesquisa Origem e Destino, maior pesquisa sobre mobilidade aplicada na RMSP. "A coleta de dados sobre gênero fomentou análises que identificaram padrões diferentes de mobilidade entre mulheres e homens, mas não sabemos como isso se dá a questão racial."

Logo, distâncias físicas são evidentes e contribuem com a distância social, enraizada na cidade e no imaginário das pessoas negras, de modo que a segregação racial não precisa nem de lei ou de placa para ser reproduzida, como foi em outros países no mundo, basta "deixar tudo como está". Pelo contrário, são necessárias ações afirmativas e mudanças estruturais para mudar os rumos da história.