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Carros | Ranger, a partir de R$ 156.529, vira carro mais barato da Ford: entenda o por quê

Carros | Ranger, a partir de R$ 156.529, vira carro mais barato da Ford: entenda o por quê

A decisão tomada pela Ford de fechar suas fábricas no Brasil e tirar de linha os modelos Ka, Ka Sedan e EcoSport transforma a empresa em mera importadora no País. A companhia anunciou foco em produtos de "maior valor agregado", ou seja, mais caros e rentáveis.

Com o adeus do trio de compactos, a Ranger, que parte de R$ 156.290, assume o posto de veículo mais barato da marca. Nada indica que seus próximos lançamentos, como o Bronco, produzido no México, custarão menos do que esse valor.

A aposentadoria do Ka logo após fechar 2020 como o sexto carro mais vendido do País, com 67.491 emplacamentos, esquenta o debate sobre o quanto vale a pena investir em carros mais baratos em nosso mercado, ainda que tenham alto volume.

Há cerca de dois anos, Carlos Zarlenga, presidente da General Motors para o Mercosul, ameaçou encerrar as operações da montadora na América do Sul, alegando "prejuízo agregado significativo no período de 2016 a 2018" em comunicado enviado aos funcionários.

Durante o período citado, a fabricante foi líder geral de vendas de automóveis e comerciais leves, com participação de mercado superior a 17%. Também bateu recordes de licenciamentos com o Chevrolet Onix - que em 2020 foi líder absoluto pelo sexto ano consecutivo.

Após demissões e acordos com governos e concessionários, a operação local foi mantida. Porém, ficou a pergunta: como é possível ter prejuízo vendendo tanto assim?

Na segunda-feira passada, mesmo dia em que a Ford anunciou o fim da produção local, a Anfavea, que representa as montadoras instaladas aqui, disse que a decisão "corrobora o que a entidade vem alertando há mais de um ano sobre a ociosidade local e global, bem como a falta de medidas que reduzam o Custo Brasil".

A entidade se referiu a fatores como alta e complexa carga tributária, bem como custos elevados com logística e mão de obra - discurso que se tornou mantra entre os executivos das montadoras em nosso País.

'Carro popular não paga as contas'

Ford Ka Camaçari - Divulgação - Divulgação
Ka, Ka Sedan e EcoSport já deixaram de ser fabricados na Bahia e se despedem assim que acabar estoque
Imagem: Divulgação

Para jogar mais luz sobre o tema, UOL Carros conversou com Flavio Padovan, que trabalhou durante 30 anos na Ford, onde ocupou o cargo de diretor comercial da operação de caminhões para a América do Sul e foi membro do conselho de administração local da marca.

O executivo também comandou as operações da Jaguar Land Rover no Brasil entre 2010 e 2014 e hoje é sócio da MRD Consulting, consultoria que atua nas áreas de planejamento e gestão estratégica.

Independentemente dos motivos que levaram ao fechamento das fábricas da Ford, Padovan avalia que automóveis mais em conta não são lucrativos de uma maneira geral em nosso mercado.

"Os chamados carros populares, os modelos de entrada, não oferecem margem de lucro ou têm lucratividade mínima. Não pagam as contas, mesmo com alto volume para os padrões brasileiros", opina.

De acordo com ele, a função dos automóveis de entrada é obter escala para ocupar a capacidade ociosa das fábricas, que hoje está em 50% em média. Segundo o executivo, isso ajuda a evitar ou reduzir gastos necessários para manter linhas de produção subutilizadas.

Os modelos mais sofisticados das montadoras em operação no País, incluindo a Ford, são na maioria trazidos de fora, enquanto a produção local prioriza veículos mais acessíveis.

"As montadoras ganham dinheiro, de fato, com os modelos mais caros".

Quanto à rentabilidade da nova fase da Ford, Flavio Padovan diz ter dúvidas, considerando que a gama será 100% importada.

Tudo dependerá de onde os carros virão: o Brasil tem acordo de livre comércio com o México, de onde será exportado o Bronco, sem incidência de imposto de importação. Nosso País também pode trazer veículos da Argentina, como já acontece com a picape Ranger, com isenção tributária, limitada por cotas.

Produtos mais caros para sobreviver

Ford Territory Titanium - Murilo Góes/UOL - Murilo Góes/UOL
Ford planeja voltar a lucrar com modelos como o chinês Territory, a partir de R$ 179,9 mil
Imagem: Murilo Góes/UOL

O foco nos tais modelos com maior valor agregado não é um fenômeno novo no Brasil, desconsiderando as marcas de luxo.

Montadoras como a Honda e a Toyota sempre priorizaram aqui modelos mais caros, abrindo mão do segmento de automóveis 1.0 e do alto volume em prol de maior margem por veículo vendido.

Nos últimos anos, a FCA tem concentrado seu foco na marca Jeep, o que aumentou os lucros, ao custo da perda da liderança geral da Fiat em quantidade de veículos comercializados.

A PSA, prestes a se fundir com a FCA, adota estratégia semelhante.

O fenômeno do crescimento dos SUVs, independentemente da marca, é outro sinal do foco crescente em automóveis mais caros e equipados.

"É claro que, para as montadoras, quanto mais vender, melhor. Honda e Toyota, por exemplo, não estão totalmente satisfeitas com seu volume de emplacamentos, mas o foco em produtos de maior valor é o que tem feito essas e outras marcas sobreviverem", conclui Padovan.