Política

Opinião: Milly Lacombe - Ao se calar, futebol brasileiro dá as mãos ao extermínio bolsonarista

Opinião: Milly Lacombe - Ao se calar, futebol brasileiro dá as mãos ao extermínio bolsonarista

Em tempos de extermínio, quem cala se coloca ao lado do assassino. O futebol brasileiro, através de clubes, dirigentes, jogadores e torcidas organizadas, precisa se manifestar de forma oficial, clara e contundente diante do que está acontecendo no Brasil.

Não basta pedir "usem máscara", não basta dizer "lamentamos ter que jogar sem torcida", não basta repetir "fiquem em casa" num país em que a maioria das pessoas não pode se dar ao luxo, não basta noticiar número de mortos antes dos jogos ou pedir um minuto de silêncio. Também não vale ir se vacinar no Paraguai, em Miami, onde quer que seja sem participar de campanha para que a vacinação no Brasil seja acelerada.

É compreensível o desespero porque estamos todos e todas com medo, mas não é compreensível a covardia de se eximir de manifestações públicas contra o atual governo. Não estamos mais falando de "lados", de "ideologias", de partidarismos. Estamos falando de viver e de morrer. De respirar ou de sufocar. O futebol não pode achar que existe em tempo-espaço suspenso e que se seguir sendo jogado uma hora as coisas voltam ao normal. Não tem mais normal. Não temos mais para onde voltar. Ou a gente entende isso e se coloca, ou estaremos condenados.

"Não me manifesto porque não me meto em política", dizem alguns. Isso até pode valer para tempos relativamente sãos (coisa que esse país ainda não conheceu), mas para tempos de genocídio esse tipo de declaração é, para dizer o mínimo, covarde.

As emissoras que transmitem os jogos também precisam falar mais coisas além de noticiar o número de mortos antes de cada partida. Do que adianta, aliás, dar a notícia do número absoluto dos já vacinados sem nenhum contexto percentual que indique o que esse número representa em relação à população total? O número absoluto pode oferecer a ideia de que muitos de nós já fomos vacinados - o que está longe de ser verdade.

Jogadores extraordinários e tão influentes como Gabigol precisam se manifestar. O time do Flamengo - a sensação do momento - precisa se manifestar. Treinadores precisam se manifestar. Times chamados de grandes precisam honrar a grandeza e se elevar à estatura que o momento exige.

Claro que a situação é complexa porque entre nossos craques existe um grande número que apoia Bolsonaro e, com isso, legitima suas políticas assassinas. Trata-se de uma delinquência que precisa ser pontuada. Por isso, a manifestação deveria partir da CBF, das federações e dos clubes enquanto instituições que sabem que, sem o torcedor, não são nada. Porque é o torcedor que está sendo exterminado.

Que o Flamengo entre em campo com o uniforme estampando o nome de uma empresa que está alinhada ao Governo de e de Paulo Guedes é uma indecência, uma incoerência, uma imoralidade. O fascismo só existe porque há quem o financie. Foi assim em todos os momentos históricos: não houve genocídios que deixaram de ter apoio de uma certa elite financeira e econômica.

No fim de semana em que os campeonatos estaduais estão sendo decididos, o atual mandatário, diante de quase 500 mil mortos, promove aglomerações, sai sem máscara, trabalha árdua e acintosamente pela propagação do vírus.

Não é mais aceitável que o futebol brasileiro silencie ou se manifeste de forma tímida. É o jogo das nossas vidas e quem esquiva de se colocar ao lado da população que está morrendo veste, automaticamente, a camisa do fascismo e dos fascistas.