Política

M. Pichonelli | Bolsonaro conta lorota até na ONU

M. Pichonelli | Bolsonaro conta lorota até na ONU

Quem costuma desancar o trabalho de jornalistas deveria passar um dia, um dia só, numa redação para observar a bateria de questionamentos recebida pelos repórteres para deixar alguma apuração de pé.

"De onde você tirou esse número?". "Vamos checar melhor essa informação?". "Essa passagem foi assim mesmo?". "Por que não comparamos com outros períodos?". "Isso é muito ou é pouco?". Por que isso é relevante?". "Você precisa ouvir a fonte de novo". "Ouve de novo. Ainda não está claro".

Até chegar ao título, o texto passa por um moedor ao estilo Tropa de Elite, mas com uma sentença invertida: "Pede pra não sair".

Não importa quantos anos de profissão você tenha. Vamos sempre dormir mal, se é que vamos dormir, quando precisamos admitir alguma imprecisão, que dirá uma mentira vendida a nós como furo. Escrever erratas faz parte do jogo e da transparência, mas é sempre tenso e vergonhoso.

Com tantos recursos de checagem, quem cresceu tendo o papel e uma biblioteca distante como únicas fontes de informação poderia imaginar que o mundo atual, diverso e conectado dificultou a vida dos falsificadores. Sabe aquele loroteiro que sempre aparecia no bar dizendo que já jogou no Corinthians e era amigo do Juscelino Kubitschek? Com dois cliques é possível desmontar qualquer mentira pelo contrapé.

Só que esse loroteiro, por alguma razão, saiu do bar e venceu na vida.

Com tanta informação, ficou difícil navegar nas redes sem naufragar. A confusão virou palanque para distrações. Foi a pá de cal na premissa de que o acesso ao conhecimento, sem mestres ou teses enviesadas, seria um direito e um tiro fatal no obscurantismo.

Aconteceu justamente o oposto, e é prova disso.

Bolsonaro deixou de ser um azarão da campanha em 2018 depois que divulgou no Jornal Nacional uma lenda sobre a distribuição nas escolas de um certo kit gay patrocinado pelos opositores. A conversa era uma falácia, mas os olhos embotados de confusão e medo do cidadão comum turvou qualquer objetividade. A ponto de alguns olharem aquele sujeito errático, expulso do Exército e nulo no Parlamento, como a liderança certa para guiar o Brasil.

Mentira tem perna curta, diziam os avós, mas no mundo das redes elas não se desmentem facilmente; são trocadas por outras e servem de alavancas para todo tipo de engajamento.

De alavanca em alavanca, Bolsonaro chegou à Assembleia Geral da ONU. E, pelo segundo ano seguido, discursou diante do mundo um apanhado de mentiras e imprecisões que fizeram as plataformas de checagem trabalharem mais do que os técnicos de videoarbitragem em dia de clássico.

Como a ONU não tem VAR em tempo real, Bolsonaro falou o que quis sobre pandemia, devastações e queimadas, a quem atribui a culpa a caboclos e índios. É mais fácil demonizar os grupos sociais em plena assembleia da ONU do que ser honesto, por exemplo, com números relativos ao seu auxílio emergencial, exagerado para cima para sair bem na foto.

Diante do mundo, Bolsonaro desfila uma lei antiga segundo a qual o que é bom a gente fatura, o que é ruim, esconde. Em 1994, um ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, precisou deixar o cargo após detalhar esta lei informal e admitir que não tinha "escrúpulos".

Duas décadas antes, um presidente dos EUA, Richard Nixon, foi obrigado a renunciar por ter mentido à nação.

Hoje seria chamado de mito.

A pecha pega bem em quem se arvora na mitomania, como é chamado o desejo compulsivo por mentir, para chegar e se manter onde deseja. Nunca antes na história deste país tanta gente mentiu tanto sobre o currículo como os integrantes e aspirantes a integrantes deste governo.

Os filhos do presidente têm a quem puxar. O mais velho, meses atrás, divulgou a imagem falsa de um velho conhecido seu que teria sido executado pela polícia do governo petista na Bahia. O corpo era de outra pessoa, mas ficou por isso mesmo.

Nesta semana, ele deveria comparecer ao Ministério Público do Rio para uma acareação com um empresário que o acusava de saber, por antecipação, de uma operação da polícia contra seu então assessor, Fabrício Queiroz. Ele faltou alegando ter compromisso público. Foi visto dançando na TV com um apresentador puxa-saco. Também ficou por isso mesmo.

Há quem acredite que ele também não sabia que o ex-assessor encrencado estava escondido na casa de seu advogado. E fica, de novo, por isso mesmo.

A tática está tão disseminada que há algumas semanas a deputada Carla Zambelli, da base aliada, pediu orações para enfrentar a covid e, sem perceber, escreveu para ela mesma desejando forças e pronta-recuperação. Pouco depois, disse ter sido curada graças à cloroquina e foi, que veio a público dizer que ela não tinha doença. Qualquer um teria se escondido de vergonha, mas para as redes ela apenas "mitou".

Outra aliada da turma, a deputada Flordelis dos Santos, deu uma entrevista recente chorando a perda do marido assassinado na porta de casa. Em detalhes, descreveu até o som e a sequência dos tiros diante das câmeras. Segundo a polícia, eram lágrimas de crocodilo: a, executado pelos filhos adotivos.

Reparem que não estou nem falando (ainda) de fake news, daquelas distribuídas por um número e uma sequência numérica dispostas a nos convencer que revólver de verdade protege, mas revólver para medir temperatura dá câncer. Estou falando de quem dá corpo e vida à própria lorota.

"É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade. Por isso é preciso tomar muito cuidado com a informação", dizia uma antiga campanha publicitária da Folha de S.Paulo que distribuía informações positivas sobre um cidadão que, ao fim da peça, era revelado como Adolf Hitler.

Alguém aprendeu a lição e fez o oposto. Só não sabemos se a mentira se sofisticou para sobreviver em tempos de comunicação em rede ou se ficamos mais estúpidos a ponto de acreditar nas lorotas do tiozinho do bar que já não quer ser amigo do presidente. Quer, ele mesmo, ser o presidente.

A verdade é que os embustes estão ganhando de lavada.