País

Pode ser expulso: Marinha investiga pré-candidato militar que criticou Bolsonaro

Pode ser expulso: Marinha investiga pré-candidato militar que criticou Bolsonaro

A Marinha abriu sindicância contra um terceiro sargento que atua na Escola Naval, no Rio de Janeiro, por ele ter questionado nas redes sociais por que a primeira-dama Michelle Bolsonaro recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz —ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos) e amigo do presidente Jair Bolsonaro— e da esposa dele, Márcia Aguiar.

A pergunta foi feita por Michel Uchiha, 30, militante do movimento LGBTQI+, que é pré-candidato a vereador pelo PSB. Se a investigação concluir que ele infringiu as regras das Forças Armadas, será aberto um processo disciplinar que pode levar até à sua expulsão das fileiras da Marinha.

Depois de tornar pública sua pré-candidatura a vereador, Uchiha diz que vem recebendo mensagens em tom de ameaça dos próprios colegas de farda por meio do WhatsApp e redes sociais. Militante do movimento LGBTQI+, ele credita os ataques ao fato de ser um pré-candidato gay, militar e de esquerda.

Os comentários têm teor homofóbico e de intimidação física. “Não aguenta um tapa”, escreveu um internauta. “Não aguenta um minuto no tatame” completou outro.

Uchiha, que serve a Marinha há quase 11 anos, viu o problema crescer com a instauração da investigação. A acusação é de que, com o questionamento em seu perfil pessoal no Twitter sobre os R$ 89 mil depositados na conta de Michelle, Uchiha estaria fazendo uso político-partidário das redes sociais, o que é vetado pela legislação interna da Marinha.

Em 23 de agosto, perguntas sobre os depósitos a Michelle viralizaram nas redes sociais após Bolsonaro ameaçar um jornalista do jornal O Globo que o havia questionado: “Presidente, por que a sua esposa recebeu R$ 89 mil do Fabrício Queiroz?”. Sem responder à pergunta, o presidente reagiu: “Minha vontade é encher tua boca com uma porrada, tá”.

Marinha vê em post ofensa a Bolsonaro

Segundo documento ao qual o UOL teve acesso, a Marinha do Brasil alega que abriu a sindicância porque o praça “publicou em suas redes sociais declarações ofensivas ao sr. presidente da República e respectivos familiares”.

Michel conta que os episódios de xingamentos nas redes se intensificaram depois que uma publicação o comparou com o policial youtuber Gabriel Monteiro, também pré-candidato a vereador, que ganhou notoriedade por defender Bolsonaro. Um militar heterossexual de direita e o outro gay de esquerda.

“O que deixou algumas pessoas indignadas foi o fato de ter um militar candidato a vereador gay e na esquerda. Se fosse na direita, estava tudo certo, não rolariam ataques”, diz.

“Rastrearam minhas redes sociais e começaram a perseguição também no perfil do meu noivo. Ele teve que restringir o acesso. Um completo desrespeito.”

Em um dos áudios que circula em grupo de WhatsApp da Marinha, Uchiha é xingado após defender um outro militar também ridicularizado por conta de sua orientação sexual. Ele conta que colegas o alertaram de que fotos suas com mensagens de ódio estão circulando em grupos.

Para os ataques, os colegas alegam que, ao mencionar o presidente da República, Uchiha estaria infringindo artigo do Regulamento Disciplinar da Marinha e do Ministério Público Militar. A legislação interna veta manifestações político-partidárias dos militares.

Contudo, perfis em redes sociais de outros militares revelam uma série de postagens de cunho político, defendendo não apenas o presidente, mas também sua equipe de ministros.

O que diz a Marinha

Questionada, a Marinha informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que “repudia todas as formas de discriminação” e que os militares “devem seguir valores e preceitos contidos no Estatuto dos Militares (EM) – Lei 6.880/80 – e no Regulamento Disciplinar para a Marinha (RDM) – Decreto nº 88.545/83 – como a ética, a honra e o pundonor militar [matéria de honra], dentre outros, de forma individual ou coletiva, em todos os ambientes”.

Sobre a investigação, acrescentaram que “o procedimento foi instaurado para apurar possíveis condutas contrárias aos preceitos do EM e do RDM à luz dos fatos e das circunstâncias, com transparência e amplo direito de defesa, nos termos da lei.”