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Cassiano, o gigante do soul brasileiro que quis ser esquecido, mas não foi – Por Pedro Antunes

Cassiano, o gigante do soul brasileiro que quis ser esquecido, mas não foi – Por Pedro Antunes

Morávamos em um apartamento de quinto andar do prédio da Santa Cecília, no centro de São Paulo, mas o barulho vindo das caixas de som dos famosos karaokês que enchiam a outrora movimentada Rua Canuto do Val, fazia com que o nosso quarto fosse uma extensão do tal estabelecimento de nome Coconut.

Dormíamos embalados pelos berros de “Primavera (Vai Chuva)”, a canção de amor atemporal, embora sazonal, eternizada pelo vozeirão de Tim Maia (e, posteriormente, por Mauricio Manieri, entre outros), mas assinada por Cassiano e Silvio Rochael.

Cassiano era Genival Cassiano dos Santos, artista nascido em Campina Grande (PB), responsável transformar a música brasileira e moldar o que conhecemos como soul music brasileira.

Um fenômeno de alguns poucos discos, mas seminais. Morto ontem (7), aos 77 anos, Cassiano teve a carreira precocemente interrompida por um grave problema respiratório. Ele perdeu um dos pulmões e o cantar se tornou pesaroso.

Desconhecido do público, mas referência dos músicos. Cassiano era essa figura ímpar. Com Tim Maia, deu ao Brasil uma soul music para chamar de sua, com arranjos locais, digamos, conectados à herança da bossanovística de décadas antes e ao samba-canção.

Depois de reverberar com o grupo Os Diagonais (com o álbum homônimo, de 1969, e “Cada Um na Sua”, de 1971), Cassiano entrou nos anos 1970 com a sede de criar sua própria revolução musical com a black music, ao lado de Tim Maia e Hyldon, enquanto o Brasil fervilhava a mudanças, com o tropicalismo, o amadurecimento da Jovem Guarda e tudo mais.

Ouvir “Primavera (Vai Chuva)” de “Imagem e Som”, o primeiro álbum de Cassiano, lançado em 1971, é testemunhar a explosão de possibilidades que o artista trazia para a nossa música pop. Vou colocar o player de YouTube aqui e ouça como Cassiano deitava a voz nos versos, acompanhada pela melodia dos instrumentos de sopro e a conduzida feita pelo teclado. É tudo de uma poesia intensa.

Se isso não emocioná-lo, por favor, verifique se há um coração batendo aí.

Cassiano tinha uma discografia diminuta, embora importante. Viveu frustrações quando suas músicas não aconteceram (na época, “acontecer” significava tocar na rádio), principalmente com os dois primeiros álbuns, “Imagem e Som” (1971, onde gravou a sua versão de “Primavera” após a popularidade da música na voz de Tim Maia) e “Apresentamos nosso Cassiano” (1973), ambos explosões sortidas de soul com samba, rock progressivo com bossa, psicodelia com funk americano.

E, claro, dois discos também entupidos de canções sobre corações apaixonados.

Do histórico terceiro álbum, “Cuban Soul”, vieram outros grandes sucessos comerciais. Escritas em parceria com Paulo Zdanowski, “Coleção” e “A Lua e Eu” foram escolhidas para a trilha sonora de novelas da Globo (respectivamente “Locomotivas” e “O Grito”), na segunda metade dos anos 70.

Estas são músicas, também, foram regravadas por Ivete Sangalo (que cantou “Coleção” quando ainda integrava a Banda Eva) e Pixote (que ressignificou “A Lua e Eu” e a transformou em um clássico do pagode 90).

E, mesmo assim, apesar da popularidade da época com seguida com a exposição na Globo, Cassiano teve o quarto disco negado pela gravadora da época, a CBS por ser complexo demais. Na mesma época, os problemas de saúde acabaram por comprometer um de seus pulmões.

Cantar se tornou difícil e somente mais um disco foi lançado por Cassiano, “Cedo ou Tarde”, em 1991.

O músico decidiu pelo auto exílio.

Optou por desaparecer e foi Mano Brown, com samples nos álbuns dos Racionais MC’s, ajudou a renovar o interesse pela excelente obra de Cassiano.

O instrumental de “Uma Lágrima” (do primeiro disco solo de Cassiano, “Imagem e Som”) embala Mano Brown em “Sou + Você” (do álbum “Nada Como Um Dia Após O Outro Dia”, de 2002).

Racionais fizeram isso com outras músicas de Cassiano como “Onda” (usada na música deles “Da Ponte Pra Cá”, de 2002) e “Castiçal” (em “Eu te Proponho”, de 2014).

Também foi gravado por Djavan, Marisa Monte e, claro, Tim Maia, também grande parceiro de composição. Sem Cassiano e “Primavera”, talvez Tim não se tornasse quem foi. Será?.

Cassiano queria ser esquecido e, em partes, conseguiu porque o Brasil sofre do mal crônico de perda de memória. Isolado em um sítio, pelo que soube, não queria saber do mercado da música.

Mas não foi olvidado por completo, também. Nos sebos, seus álbuns em vinil são disputadíssimos. Músicos sempre o relembram em entrevistas, como uma de suas influências. Jornalistas o citam aqui e acolá.

E sempre haverá alguém para cantar “A Lua e Eu” e, claro, “Primavera”, nos karaokês da vida.

Triste que a partida de Cassiano tenha sido justamente em meio ao silêncio sepulcral pandêmico que tomou conta das noites da outrora barulhenta Rua Canuto do Val. Teria ouvido o berro dos alcoolizados de bom grado.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Polêmica Paraíba