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Notícias | Como aeromoça virou 'heroína' antes de morrer em avião em 11/9

Notícias | Como aeromoça virou 'heroína' antes de morrer em avião em 11/9

Em meio à lembrança dos 20 anos dos ataques de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, uma história se destaca: a de uma comissária de bordo que não sobreviveu à colisão de seu avião a uma das torres do World Trade Center mas que, mesmo assim, ganhou fama de heroína.

Uma gravação que veio a público em 2004 revelou como a comissária de bordo Betty Ann Ong ajudou a identificar os sequestradores do voo 11 da American Airlines, o primeiro a colidir contra as torres do World Trade Center. Ela, que sequer deveria estar trabalhando no voo, antecipou uma viagem para passar férias com a irmã.

"A cabine não atende ao telefone e há alguém esfaqueado na classe executiva, Não conseguimos respirar na classe executiva, alguém está usando noz-moscada ou algo assim", diz Betty, em voz baixa, pelo aerofone do avião, aos controladores de voo em terra. "Acho que estamos sendo sequestrados".

Betty, de 45 anos, pediu para trabalhar em um turno extra no voo 11, com destino a Los Angeles, saindo do Aeroporto Logan de Boston, para que pudesse passar férias com sua irmã, Cathie, no Havaí. Porém, 14 minutos após a decolagem, o avião sequestrado fez meia-volta e rumou para a cidade de Nova York.

Graças ao telefonema furtivo de Betty, que ficou registrado em uma gravação, o mundo soube que terroristas feriram gravemente os comissários de bordo Karen Martin e Bobbi Arestegui, cortaram a garganta do passageiro da classe executiva Daniel Lewin e "abriram caminho" para a cabine, onde provavelmente mataram os copilotos John Ogonowski e Thomas McGuinness Jr.

Jornais homenageiam o heroísmo de Betty Ong em 11 de setembro de 2001 - Reprodução/9/11 Memorial & Museum - Reprodução/9/11 Memorial & Museum
Jornais homenageiam o heroísmo de Betty Ong em 11 de setembro de 2001
Imagem: Reprodução/9/11 Memorial & Museum

Também graças à sua coragem, as autoridades souberam que eles utilizaram algum produto com cheiro de noz-moscada e que os passageiros se amontoaram no interior do avião para escapar da fumaça tóxica, enquanto o avião voava em direção a Nova York.

As autoridades foram capazes de identificar rapidamente os cinco sequestradores porque Betty e sua colega assistente, Madeline Sweeney, repassaram os números dos assentos dos homens. Isso, é claro, ajudou na investigação dos ataques.

"Orem por nós. Orem por nós", foram as últimas palavras de Betty, momentos antes do voo 11 colidir contra a Torre Norte do World Trade Center, às 8:46 da manhã.

Muitos dos 25 comissários de bordo assassinados no 11 de setembro tiveram gestos de coragem. Vinte anos depois, a contribuição de Betty, uma ásio-americana, se destaca ainda mais por conta da onda de crimes de ódio contra os americanos de origem asiática.

"Minha irmã deu sua vida por seu país em 11 de setembro", disse ao New York Post Cathie Ong-Herrera, uma das duas irmãs de Betty "É muito doloroso quando você pensa sobre o que está acontecendo hoje".

Queria ser modelo, mas escolheu ser aeromoça

Betty, cuja mãe emigrou da China, nasceu em San Francisco e era a mais nova de quatro irmãos. Com seu corpo esguio e um rosto bonito, Betty chegou a pensar em ser modelo, mas sua mãe desaprovava a ideia.

Como desejava viajar desde criança - às vezes ela ia até o Aeroporto Internacional de São Francisco apenas para ver os aviões decolarem -, decidiu ser aeromoça. Como comissária de bordo, ela pôde levar suas irmãs a lugares como China, Japão, Havaí, Canadá e Inglaterra.

Família de aeromoça doou alfinetes de lapela para o Museu do 11 de setembro - Reprodução/9/11 Memorial & Museum - Reprodução/9/11 Memorial & Museum
A família de Betty Ong doou seus alfinetes de lapela da American Airlines para o Museu e Memorial do 11 de setembro
Imagem: Reprodução/9/11 Memorial & Museum

Em 11 de setembro de 2001, quando surgiram notícias do primeiro avião se dirigindo ao World Trade Center, os irmãos de Betty tentaram desesperadamente entrar em contato com ela. A princípio, o pessoal da companhia aérea garantiu que ela não estava no voo 11.

Mas a família ouviu falar de uma corajosa comissária que forneceu informações do avião. "Eu disse a mim mesma: 'Deve ser Betty'", lembrou Cathie.

A família soube da existência do áudio durante o enterro de Betty, por intermédio de uma funcionária que trabalhava na torre de controle do aeroporto no momento do sequestro.

A família ouviu consternada quando a gravação revelou que a equipe de terra não percebeu imediatamente a seriedade da ligação de Betty e continuou fazendo as mesmas perguntas, perdendo um tempo precioso. Embora a ligação tenha sido enlouquecedora, a família está feliz por ter sido gravada. O áudio veio a público anos depois.

Cathie lembra que a família ficou consternada quando a gravação revelou que a equipe de terra não percebeu imediatamente a seriedade da ligação de Betty e continuou fazendo as mesmas perguntas, perdendo um tempo precioso. Embora a ligação tenha sido "enlouquecedora", em suas palavras, a família está feliz por ter sido gravada.

"Estou muito grata por podermos conhecer os últimos minutos da vida de Betty", disse Gloria Ong, uma das irmãs.

Em 2004, a família Ong criou uma fundação em honra de Betty. Ela financia acampamentos de verão para crianças e programas sociais para idosos no Betty Ann Ong Chinese Recreation Center, em San Francisco.

"Continuamos a manter seu legado vivo com o trabalho que estamos fazendo", disse Cathie. "Queremos espelhar quem era Betty."