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Eleições no Peru | Pedro Castillo amplia vantagem; Keiko fala em 'indícios de fraude'

Eleições no Peru | Pedro Castillo amplia vantagem; Keiko fala em 'indícios de fraude'

Os votos da região rural, da área de selva e do exterior podem definir o segundo turno das eleições presidenciais deste domingo (6) no Peru, onde Pedro Castillo (Peru Livre) vai vencendo Keiko Fujimori (Força Popular) por uma margem de pouco mais de 95,5 mil votos, segundo último boletim do ONPE (Escritório Nacional de Processos Eleitorais, na sigla em espanhol).

Por volta das 21h20 de hoje (horário local, 23h20 em Brasília), Castillo aparecia com 50,28% dos votos válidos, enquanto Fujimori tinha 49,72%, com 96.37% das urnas já apuradas.

Candidata fala em 'fraude'

Mais cedo, a candidata de Keiko Fujimori, filha do ex-ditador peruano Alberto Fujimori, denunciou "irregularidades" e "indícios de fraude" na eleição. Há "uma série de irregularidades" e "indícios de fraude na mesa" de votação, afirmou em coletiva de imprensa Fujimori, que liderava inicialmente o escrutínio, mas foi superada por Castillo com o início da contagem dos votos nas áreas rurais do país.

"Há uma clara intenção de boicotar a vontade popular", denunciou a filha do ex-presidente preso Alberto Fujimori, que mostrou alguns vídeos e fotos para apoiar suas denúncias, entre elas a de um registro de votação de um posto rural onde Castillo obteve 187 votos e ela nenhum.

Por sua vez, o partido Peru Libre de Castillo solicitou em comunicado que o Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) "cuide da correta proteção dos dados eleitorais ao processá-los e publicá-los".

A missão de observação eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA), que não mencionou irregularidades nas urnas, indicou nesta segunda-feira que "a contagem dos votos foi realizada de acordo com os procedimentos oficiais".

"Embora os cidadãos tenham dado o seu voto, o processo eleitoral continua" e a "conduta [dos candidatos] neste momento é crucial e decisiva para manter o clima de tranquilidade", afirmou o chefe da missão, o ex-chanceler paraguaio Rubén Ramírez, em vídeo postado no Twitter, no qual apoiou o trabalho das autoridades eleitorais peruanas.

Votação

Na noite deste domingo, moradores de bairros ricos da capital Lima, como Miraflores, chegaram a celebrar a vitória parcial de Keiko Fujimori, que liderava a disputa com quase seis pontos de vantagem. A comemoração "apressada" aconteceu das janelas, uma vez que as ruas da cidade permanecem desertas por conta do toque de recolher em vigor.

Uma pesquisa de boca de urna do instituto Ipsos havia apontado uma leve vantagem para Fujimori, com 50,3% contra 49,7% de Castillo, mas uma apuração rápida dos votos do mesmo instituto apontou a inversão do resultado, com 50,2% para o professor de escola rural e 49,8% para a filha de Fujimori.

A apuração rápida, que tem margem de erro de um ponto percentual para mais ou para menos, "nunca se equivocou" nas eleições peruanas, destacou Fernando Tuesta, ex-diretor do ONPE. "O mais próximo do resultado final é a [apuração rápida] do Ipsos", escreveu Tuesta no Twitter.

O ONPE sempre divulga em seus primeiros boletins os resultados das zonas urbanas, e o percentual que falta, que demora a ser apurado, procede das zonas rurais, de selva e do exterior. Se tudo correr bem, as eleições podem ter seu resultado final divulgado ainda hoje, mas não estão descartadas impugnações dos votos, o que adiaria a definição em caso de uma diferença estreita.

"Tranquilidade"

Castillo, 51, reagiu com calma aos resultados parciais e em sua região natal, Cajamarca (norte), e advertiu que "ainda falta contar os nossos votos, da zona rural". Já Fujimori, 46, não comentou os primeiros resultados oficiais, tendo permanecido em Lima com sua família.

Mais cedo, ela declarou que a boca de urna deveria ser considerada com "prudência" porque a margem de diferença era "pequena". "Aqui não há um vencedor ou perdedor, aqui o que se tem é que buscar finalmente a unidade de todos os peruanos", completou.

Uma missão de observação eleitoral da OEA (Organização dos Estados Americanos) está no Peru para monitorar o processo, liderada pelo ex-chanceler paraguaio Rubén Ramírez, e até o momento respaldou o trabalho das autoridades peruanas.

Direita versus esquerda

Keiko Fujimori - Luka Gonzales/AFP - Luka Gonzales/AFP
Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori e candidata à presidência do Peru em 2021
Imagem: Luka Gonzales/AFP

Keiko Fujimori pode ser a primeira presidente mulher do Peru, meta para a qual trabalha há 15 anos, desde que assumiu a missão de reconstruir praticamente das cinzas o movimento político de direita fundado por seu pai em 1990. Uma eventual derrota no segundo turno não representaria apenas o terceiro revés nas urnas, mas que ela teria que ir julgamento com o risco de terminar na prisão.

Fujimori é investigada pelo Ministério Público pelo caso de pagamentos ilegais da empresa brasileira Odebrecht, um escândalo que afetou quatro ex-presidentes peruanos. Ela ficou 16 meses em prisão preventiva por este caso.

Em caso de vitória, ela estabelecerá o precedente de ser a primeira mulher nas Américas a chegar ao poder seguindo os passos de seu pai.

Do outro lado está Pedro Castillo, que saiu do anonimato há quatro anos ao liderar uma greve de professores. Se eleito, seria o primeiro presidente sem vínculos com as elites política, econômica e cultural — ou o "primeiro presidente pobre do Peru", segundo definiu o analista Hugo Otero à AFP.

O novo presidente tomará posse em 28 de julho e comandará um país em crise, que teve quatro chefes de Estado desde 2018 e que registra a maior taxa de mortalidade do mundo pela pandemia, com mais de 185 mil mortes em uma população de 33 milhões de habitantes. Em 2020, o Peru registrou queda de mais de 11% no PIB (Produto Interno Bruto).

(Com AFP)