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Chile cancela bolsas de estudo de projetos de pesquisa

Chile cancela bolsas de estudo de projetos de pesquisa

O governo chileno cancelou todas as bolsas de estudo, em curso e as previstas para o ano de 2021, dos projetos de pesquisas de mestrado e doutorado, de alunos que estão no exterior. O governo alegou que o país foi severamente afetado pela pandemia do novo coronavíruso que tornaria inviável a manutenção do programa.

Em abril deste ano, no anúncio feito pela ANID (Agência Nacional de Investigação e Desenvolvimento), que cancelou as novas bolsas de estudo de 2020, o órgão afirmou que existia a necessidade de aplicar estes recursos em outros setores devido à crise gerada pela pandemia.

"Diante do cenário de austeridade e da necessidade de redirecionamento de recursos, e devido às urgências apresentadas pela pandemia, bem como às incertezas reveladas pelo contexto global, optou-se por suspender aqueles instrumentos de vinculação internacional, que embora são fundamentais para a atividade acadêmica e de pesquisa, durante este ano, serão inviáveis", diz a nota da ANID.

Na ocasião, o governo argumentou também que estas verbas seriam destinadas a projetos na área da saúde. Mas entidades de defesa das bolsas para pesquisas científicas reclamaram da falta de transparência sobre o destino dado aos recursos, já que o desenvolvimento de pesquisas sobre o coronavírus ficou com apenas 8% do orçamento total.

Bolsas por créditos

Na mesma ocasião, o governo decidiu suspender algumas categorias das bolsas de Mestrado, como por exemplo, do programa de inserção à indústria, de pessoas com deficiência, de profissionais da educação e de pesquisadores de especializações médicas.

O anúncio foi feito no âmbito de uma reforma do programa "Becas Chile" (Bolsas Chile), que é o programa que qualifica estudantes chilenos no exterior em diversas áreas do conhecimento. A proposta era substituir as bolsas de estudos por créditos, ou seja, uma forma de financiamento na qual o pesquisador teria de devolver o valor investido.

A ANIP (Associação Nacional de Investigadores de Pós-Graduação) argumentou que a proposta de trocar as bolsas de estudo por financiamento era incompatível com o trabalho do pesquisador, que precisava se dedicar exclusivamente a construção do conhecimento.

A entidade destacou que o governo poderia estudar outras formas de ressarcimento, como por exemplo, a contratação do profissional no setor público,  em ONGs, em fundações e outras entidades sem fins lucrativos, para assim, pagar os valores.

Primeiro ano de ministério

No dia 1º de outubro deste ano, o ministro da Ciência Andrés Couve anunciou um segundo corte, agora para as bolsas de estudo que seriam abertas em 2021. A notícia foi dada no mesmo dia em que o ministério completava seu primeiro ano de funcionamento.

De acordo com a porta-voz do Idea Chile, Valentina Martinez, um dos maiores problemas é a falta de transparência sobre onde estes recursos retirados do desenvolvimento de pesquisas serão realocados. E o outro problema, é a mudança de um sistema de bolsas, para um sistema de crédito.

"Entramos em contato com vários parlamentares para pedir apoio e estamos trabalhando para que o governo justifique o redirecionamento destes fundos. E esta reforma para o sistema de crédito pode endividar ainda mais os estudantes, que já saem da graduação endividados", explica Valentina.

Valentina também destaca que o governo não deu nenhum prazo para o retorno do projeto Bolsas Chile e disse que existia a necessidade de investir essa verba no desenvolvimento de pesquisas nacionais. "Mas quando vimos o orçamento do estado para o ano de 2021, vimos que, na verdade, houve uma redução do investimento nas pesquisas locais", reforça.

Segundo a entrevistada, uma das promessas do governo de Sebastián Piñera era aumentar os investimentos em desenvolvimento, ciência e inovação em 1,2% do PIB (Produto Interno Bruto). "Atualmente, estamos no patamar ainda mais baixo com 0,36%", lamenta.

Segundo a entidade e os jornais locais, o ministro da Ciência até o momento não deu maiores explicações sobre o assunto e nem apresentou outra proposta.

Bolsas em curso

Para os bolsistas que estão concluindo seus projetos de pesquisa neste ano 2020, e precisavam de uma extensão também não houve nenhuma opção, apenas a resposta negativa por parte da ANID. Aproximadamente, 1500 bolsistas estão estudando dentro e fora do país.

Cerca de 300 pessoas que ingressaram em 2016 para o programa de Doutorado, em sua maioria no exterior, tiveram que parar seus projetos devido à pandemia do novo coronavírus. Com universidades fechadas, os projetos não puderam ser concluídos.

"Em teoria o ministro estava negociando o orçamento para essa extensão, pediram que os alunos entrassem com os pedidos no site, mas todos receberam uma resposta padrão negativa", lamenta o doutorando Adrián Oyaneder, que faz parte de um movimento chamado Bolsistas Abandonados.

Além de terem seus projetos interrompidos, os doutorandos desde junho estão sem receber nenhum recurso já que o convênio terminou. E eles ainda podem enfrentar problemas com a migração dos países onde estão porque os vistos são exlcusivos para os projetos, que possuem prazo para acabar.

"Não é possível nem trabalhar para se sustentar porque o tipo do visto não permite, e muitas pessoas tem compromissos financeiros, filhos, então essa situação", finaliza Adrián.