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Splash | Da notícia do acidente à viagem ao Rio: hora a hora da família do MC Kevin, que morreu aos 23 anos

Splash | Da notícia do acidente à viagem ao Rio: hora a hora da família do MC Kevin, que morreu aos 23 anos

Na foto do WhatsApp de Angelo Canuto, o print da tela de uma conversa em vídeo com MC Kevin. Empresário de futebol e funk, Canuto atua também como coach, trabalho que realizava com Kevin a pedido da mãe do cantor, Valquíria Nascimento.

Foi para Canuto que ela telefonou assim que soube do acidente do filho —que morreu após cair da varanda de um hotel no Rio de Janeiro. Foi dele que recebeu, algumas horas depois, a notícia da morte. E foi a ele que a mãe recorreu quando não conseguiu fazer o reconhecimento do corpo.

Splash reconta as quase 24 horas de Canuto ao lado da família de MC Kevin desde que recebeu a notícia do acidente, em São Paulo, e embarcou para o Rio de Janeiro com a mãe e o padrasto do cantor para trazê-lo de volta. "Vamos buscar nosso menino, vamos buscar nosso menino", repetia para Valquíria, tentando consolá-la.

*

20h

Recebi a ligação da Valquíria, mãe do Kevin, desesperada. Ela dizia que havia acontecido um acidente e que o Kevin tinha caído do prédio. Que ele estava no Rio de Janeiro a trabalho. Aí entrei em contato com o segurança dele. Ele já atendeu chorando muito, estava aos prantos. Disse que o Kevin tinha caído, que não sabia como, que estavam socorrendo e indo para o hospital.

Imediatamente fiz algumas ligações, já pensando na remoção dele para um hospital aqui de São Paulo. E comprei passagem para irmos imediatamente para o Rio. Consegui um voo para as 23h.

21h24

Encontrei com a Valquíria, mãe do Kevin, e o padrasto dele no Aeroporto de Guarulhos. Quando estávamos fazendo o check-in, chegou a notícia do falecimento dele. Tive que contar para ela ali. Foi muito difícil. Eu abracei ela e falei que a gente ia buscar nosso menino. Ela perguntava: "Mas o que está acontecendo?". Eu só repetia: "Vamos buscar nosso menino". Eu tinha ele como um filho, tinha que trazê-lo para casa. Ela me abraçou e chorou muito. Nenhum de nós queria acreditar.

22h25

Embarcamos. O voo foi muito tenso. A gente só ouvia sussurros e choro. Desespero. O ar mais pesado. Todo o mundo tentando encontrar uma resposta para o que tinha acontecido. Querendo que aquilo fosse um pesadelo e que pudéssemos acordar. É uma dor inexplicável.

23h30

Chegamos ao Rio e fomos direto para o Hospital Miguel Couto [para onde Kevin havia sido levado]. Tentei cuidar da parte burocrática e tomar as providências necessárias.

1h10

Fiquei incumbido de reconhecer o corpo, porque a mãe dele não tinha condições. É um momento muito difícil, precisa ter coragem e alguém tem que fazer. Valquíria me confiou isso e fui. Difícil foi no retorno, quando ela me perguntou, esperançosa, se não era ele. E eu tive que confirmar que era.

1h40

Fomos para um hotel, descansar um pouco. O corpo só seria liberado pela manhã. Tomei um remédio para baixar um pouco a pressão, mas foi uma noite muito tensa. O telefone tocando o tempo todo. Fiquei revendo meus vídeos com ele, as mensagens que a gente trocava. Eu falava muito com ele sobre a velocidade da vida e que ele precisava diminuir o ritmo. A vida do artista é diferente da dos garotos comuns. É como na Fórmula-1, se não reduzir não consegue fazer a curva. Ele sempre foi muito intenso. Eu temia que acontecesse algo assim, o tempo todo. Essas viagens, essa adrenalina.

Angelo Canuto (à esq.) e Kevin - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Angelo Canuto (à esq.) e Kevin
Imagem: Arquivo pessoal

8h

Acordamos, tomamos café da manhã e nos arrumamos para sair.

10h30

IML [Instituto Médico Legal]. A gente ficou aguardando documentação, acertando funerária e assinando documentos. A mãe dele estava mais encorajada e quis vê-lo. Inexplicável. Mas, depois disso, buscou forças nela mesma e passou a repetir: "Eu tenho que ficar bem, tenho mais filhos, tenho que cuidar de todos". Quase como um mantra.

12h

Valquíria resolveu dar uma declaração para a imprensa. Foi muito breve, mas era a vontade dela. Agradeceu às pessoas e falou um pouco sobre a perda dela.

13h

Ela queria ver a nora [Deolano Bezerra, mulher do cantor, que também estava no Rio de Janeiro]. Fomos, então, até a delegacia, pois ela estava lá sendo ouvida. A gente ficou no saguão, só a Valquíria entrou. A certa altura, o padrasto se desesperou com os meninos da equipe que estavam ali. Eles saíram todos para trabalhar juntos e um não ia mais voltar. Era a dor de um pai, ele não estava responsabilizando ninguém por nada.

Todos esses vídeos e áudios que estão surgindo… Eu temo. Eles podem ser mal interpretados, pois estão fora de contexto. É como a peça de um quebra-cabeça que tem o formato correto, mas não é da mesma cor. Ainda é muito prematuro para tirar conclusões sobre o que aconteceu.

14h40

Chegamos ao aeroporto, comemos um lanche e aguardamos o voo de volta.

16h

Decolamos rumo a São Paulo.

17h

Pousamos. Seguimos para casa. Agora vamos tomar banho, nos trocar e aguardar o corpo, que vem de carro e deve chegar por volta de meia-noite. Vamos abrir o velório ao público das 4h às 8h, depois será apenas para a família e os amigos próximos. Decidimos fazer na quadra da Vila Maria porque lá tem um espaço generoso e vamos conseguir controlar o acesso das pessoas, da forma como tem que ser feito.

Enquanto isso, tentamos lidar com essa perda. Por mais que eu tenha certeza de que conversei tudo com ele, nunca vou aceitar. É uma conjectura atrás da outra até entender o que aconteceu. E, mesmo entendendo, não tem retorno.