Geral

Sakamoto | Fala de Ernesto marca fim da política externa, diz Randolfe

Sakamoto | Fala de Ernesto marca fim da política externa, diz Randolfe

O clima esquentou entre a oposição e o chanceler Ernesto Araújo em audiência pública da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal, nesta quinta (24).

"Se for falar de corrupção, vamos falar da família do presidente", afirmou Rogério Carvalho, líder do PT no Senado Federal. O ministro das Relações Exteriores havia dito que, em governos anteriores, "algumas pessoas gostariam que negociássemos acordos pró-corrupção e estamos negociando acordos anticorrupção".

Araújo foi "convidado" para esclarecer a visita do secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, a Roraima, na última sexta (18). Caso não aparecesse, os senadores iriam barrar 33 indicações de a embaixadas brasileiras. A visita de Pompeo levou o governo Bolsonaro a ser acusado de usar a política internacional brasileira para provocar o vizinho, criando um factoide para a campanha de Donald Trump à reeleição.

O chanceler defendeu seu colega norte-americano, dizendo que declarações de caráter golpista que circularam na imprensa originaram-se de um erro de tradução, segundo a Embaixada dos EUA. Mas chamou o governo venezuelano de "bando de fasínoras", "narcotraficante", entre outros adjetivos desabonadores.

À coluna, Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirmou que o "depoimento não respondeu nada do que foi indagado e só marca o triste fim da nossa política de relações exteriores". Na audiência, o senador disse ao chanceler que espera que esses acordos anticorrupção incluam "cláusulas de combate à prática das 'rachadinhas' nos gabinetes de parlamentares".

O senador (Republicanos-RJ) é acusado pelo Ministério Público de ter usado esse expediente para desviar recursos públicos com a ajuda de seu ex-assessor Fabrício Queiroz. "Bolsonaro se inspira muitos nos mandamentos de Maduro", avalia Randolfe.

Jaques Wagner (PT-BA) criticou Araújo por afirmar que a visita de Pompeo não teve a ver com a eleição nos EUA, marcada para novembro. "O senhor não está numa classe de primário com muitos ingênuos", disse.

"Pária internacional" e "classe de primário"

Após o senador Humberto Costa (PT-PE) afirmar que o atual governo faz uma administração de "subserviência" e que lamentava que o país tenha passado de uma política externa ativa para se tornar um "pária", o chanceler disse que o Brasil virou um pária global, mas foi por causa dos governos do PT.

"O tempo todo ele passa a ideia de que está tudo muito bem e que o país tem uma excelente imagem no mundo. Fora de qualquer senso de realidade", afirmou Rogério Carvalho (PT-SE) à coluna. "É um governo despreparado para poder se relacionar com a comunidade internacional, além de demonstrar uma posição belicosa contra países vizinhos", disse.

Ernesto Araújo rebateu as acusações de estar servindo de escada eleitoral para o aliado do Norte: "se não pudermos defender os direitos humanos em época de campanha em outros países, em que mundo nos estamos?".

O senador Humberto Costa criticou a declaração à coluna. "A participação do ministro deixa claro que o objetivo da vinda do secretário de Estado norte-americano foi de fazer uma provocação, usando a questão dos direitos humanos na Venezuela para uma ação eleitoral a fim de fortalecer Trump."

O senador Telmário Mota (Pros-RR), responsável pelo requerimento que convidou o chanceler, trouxe duas bandeiras, a do Brasil e a dos Estados Unidos, dizendo que o ministro deveria proteger os interesses da primeira. Ao final, deu uma bandeira de presente a Araújo.

Chanceler defende a pressão contra a Venezuela que Bolsonaro não quer para o Brasil

Ernesto comparou a mobilização da comunidade internacional contra o regime racista do apartheid da África do Sul (1948-1994) com a situação política e social na Venezuela. Defendeu a pressão do Brasil e dos Estados Unidos por mudanças no governo de Nicolás Maduro. E disse que, na África do Sul, as pressões e sanções levaram a transformações.

Ironicamente, o Brasil começa a enfrentar a saída de investidores estrangeiros por conta do comportamento do governo Jair Bolsonaro em relação às queimadas e ao desmatamento na Amazônia.

A ideia do uso de pressão internacional, defendida por Ernesto Araújo, é rechaçada por seu colega Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, para o Brasil. Tanto que, no dia 22 de setembro, Heleno não descartou a possibilidade de retaliar países europeus que boicotem produtos brasileiros devido a questões ambientais.

Na mesma linha foi o próprio Jair Bolsonaro. Em seu discurso de abertura na Assembleia Geral das Nações Unidas, na última terça (22), ele que o Brasil é vítima de "uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal". A mentira foi criticada no Brasil e entre investidores internacionais.