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Renata Corrêa | Opinião: Seja martelado pelo Rodrigo Hilbert, vai ser bom para você

Renata Corrêa | Opinião: Seja martelado pelo Rodrigo Hilbert, vai ser bom para você

Tá vendo? Muito inteligente minha filha, pena que é gorda.

Aquele comentário do meu pai não me magoou nem um pouquinho. Com treze anos eu já via nas revistas as mulheres adultas muito mais magras que eu, com menos barriga, braços e narizes fininhos. Pelo menos inteligente eu era, assim, um consolo mesmo. Todo mundo sabe que ser bonita é muito melhor. Meu pai, obviamente, tinha razão.

O corpo era só a parte mais visível da comparação com outras mulheres. Ser chamada de piranha, vagabunda ou galinha era a regra. Na adolescência dos anos 1990 existiam dois tipos de garotas —as que davam e as que não. E isso não tem nada a ver se você já teve uma experiência sexual; basta que um menino queira te atacar moralmente. A primeira vez que fui xingada assim, eu ainda nem tinha beijado na boca.

Na faculdade, tive um roteiro recusado por um grupinho que fez um concurso extra-oficial para produzir um curta metragem —minha história, uma paródia de humor inspirada em "Cleo de Cinco Às Sete" da Ágnes Varda foi considerado muito de "nicho", mas selecionaram o roteiro de um rapaz que escreveu a história sobre o fantasma de uma moça morta ainda apaixonada pelo seu assassino —uma história muito mais emocionante e universal!

Já adulta, levantei de uma mesa em um bar pois meus colegas de trabalho estavam dando notas para as mulheres que passavam. Segundo um deles, ao contrário das outras amigas, eu era chata, sem humor e um pouco recalcada —afinal não aguentava ver outras mulheres serem "elogiadas" por eles na minha frente.

Sempre me intrigou a maneira dos homens acharem que quando concordamos ou cedemos "ganhamos pontos" e quando discordamos ou refutamos "perdemos pontos" —até hoje não entendi bem para que esses pontos servem. Os pontos do meu cartão de crédito troquei por uma air fryer.

A comparação sempre foi inseparável de ser uma menina ou ser uma mulher. Quando a gente amadurece descobre que basta mandar um joinha flw vlw e seguir o nosso rumo para longe dos machos pontuadores. Já os homens não estão acostumados com essa chateação, então dá para entender por que ficam tão obcecados quando o Rodrigo Hilbert aparece sendo um marido e um pai decente.

O fato de fazer capelas, casinhas na árvore e pontes é o de menos. No bairro de Oswaldo Cruz onde fui criada, a maioria dos homens fazia um monte de coisas. O mesmo pai que me chamou de gorda no início desta crônica vivia com uma furadeira, um rolo de silver tape e um tubo de Durepóxi para cima e para baixo como se pudesse salvar o mundo, construir cidades, unir as duas metades de um par de óculos quebrado ou trocar o espelhinho da tomada.

Com certeza você tem um parente na sua família que quebra galhos, levanta muro, faz um Chevette a álcool pegar de manhã cedo e troca a resistência do chuveiro. Rodrigo é apenas um episódio de "Pablo e Luisão" do Paulo Vieira com mais orçamento.

A comparação com o maridão de Fernanda Lima incomoda não pelas supostas habilidades sobrenaturais, mas pelo simples fato que homens não têm estrutura emocional para sustentar uma comparação com outro homem. Quantos assassinatos não foram cometidos depois de uma acusação de pinto pequeno? Fica aí essa reflexão.

As mulheres estão ousando se libertar dessa pressão. E isso é lindo. Mas a forja quente da comparação pode ser muito benéfica para os rapazes. Basta pensar que tudo que os braços sarados de Rodrigo Hilbert tocam fica bem feito, e talvez umas marteladas de desconstrução façam desses homens sofredores seres humanos melhores.