Geral

Radialista do RS sugere jogadoras "de fio dental"; Ouvinte faz BO

Radialista do RS sugere jogadoras

Thallya Onzi Scariot realizou um Boletim de Ocorrência contra a Rádio Grenal, de Porto Alegre, na tarde de hoje (22). No registro, ela cita a violência de gênero do comunicador Roberto Pato Moure. No programa Dupla em Debate, ontem (21), ele sugeriu que atletas do futebol feminino atuassem "de fio dental".

O programa tratava da final do Campeonato Gaúcho de Futebol Feminino, ocorrida no domingo (20). O Internacional ficou com o título vencendo o Grêmio por 2 a 1.

O comentarista Ben-Hur Marchiori iniciou manifestação sobre a maneira que as atletas dobravam os calções para deixá-los mais curtos — ato semelhante ao feito por muitos atletas do masculino durante jogos e treinos. Até ser interrompido.

"Uma sugestão para estas meninas, principalmente do Inter, que querem usar calçãozinho parecendo o Diogo Barbosa (lateral do Grêmio). Peçam para confeccionarem calções mais curtos. Fica horrível o que estão fazendo. As pernas são mais bonitas que os homens, não tenho dúvida", dizia ao ser interrompido.

"Joguem de fio dental", disse Pato.

No estúdio da rádio, participava do programa a comunicadora Heloíse Bordin, a quem o apresentador, Flávio Dal Pizzol, se dirigiu num pedido de desculpas em seguida.

"Heloíse, desculpe pela manifestação deste vovô tarado", brincou o apresentador. "Nem tenho palavras", disse ela. "Vão jogar de fio dental", reiterou Pato.

Ouvinte se revolta e faz BO

Thallya Scariot não ouvia o programa naquele momento. A torcedora do Internacional, porém, teve acesso ao material no Twitter e resolveu se posicionar. Acadêmica de direito, ela trabalha no Governo do Estado, tem participação frequente em políticas de defesa da mulher e entende que este tipo de posicionamento precisa ser coibido.

Além de utilizar as redes sociais para denunciar o fato, Thallya foi à Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher, hoje pela manhã, e registrou um Boletim de Ocorrência.

BO contra radialista gaúcho - Reprodução - Reprodução
Registro de ocorrência por violência de gênero em episódio no RS
Imagem: Reprodução

No documento ela relata que se "sentiu extremamente ofendida com aquela atitude, uma vez que profissionais daquela rádio sexualizaram a imagem da mulher por meio de uma vestimenta".

Ao UOL Esporte, Thallya contou que é apaixonada por futebol, que desde criança frequenta estádios e conviveu muitas vezes com assédios e discriminação. Por isso, entende que este tipo de atitude precisa ser combatida com denúncia.

"Não podemos olhar isso e ver como se fosse normal. O machismo, essas questões, se olha e não se dá bola, passa reto e está tudo certo. Quando nos manifestamos, não é uma pauta, apenas, é um problema estrutural que trazemos para debate. No futebol há muita violência doméstica, contra mulher, de gênero, se acaba pegando uma realidade de meninas e mulheres que podem viver isso em casa, na família, mas não sabem que tipo de ajuda procurar. Precisamos levar a elas onde podem denunciar, que isso também acontece no futebol", falou.

"A violência de gênero, moral, psicológica, é a porta de entrada para outras violências. E também é muito pesada. Eu não poderia ficar calada, não poderia agir como se aceitássemos isso", completou.

O que diz a rádio

Procurado pela reportagem do UOL Esporte, o comunicador Roberto Pato Moure optou por não se manifestar. Na abertura da edição de hoje do programa, ele pediu desculpas, citou que respeita as mulheres e que jamais teve intenção de atingir alguém.

"Eu gostaria de me retratar, sobre uma frase dita por mim, ontem, sobre as meninas do futebol feminino. Claro que não houve intenção nenhuma, minha, de ferir ou agredir nenhuma mulher. Até porque talvez eu seja um dos maiores, ou um dos grandes defensores do futebol feminino e das mulheres. Não me canso de proteger e de acudir as mulheres quando são ofendidas. Jamais existiu da minha parte a intenção de agredir qualquer menina do futebol feminino ou mulher deste país, e deste Estado. Se elas se sentiram ofendidas, eu peço desculpas", disse ele.

O apresentador, Flavio Dal Pizzol, ainda leu uma manifestação oficial da empresa sobre o caso, também repassada à reportagem do UOL Esporte.

"A Rádio Grenal completará nove anos de existência em maio de 2021. Desde sua estreia, é dirigida por uma mulher, que foi uma das primeiras comunicadoras a cobrir futebol no Brasil: a nossa diretora Marjana Vargas. A Rádio Grenal foi a primeira emissora de rádio no Rio Grande do Sul a contar com uma mulher atuando nas jornadas esportivas como repórter de campo. A Rádio Grenal detém, ainda, o título de primeira rádio FM a transmitir uma partida de futebol com uma equipe exclusivamente formada por mulheres, o que aconteceu na final do Gauchão Feminino do ano passado. A Rádio Grenal é apaixonada pelo futebol e apaixonada, também, pelo respeito e pela igualdade de direitos e oportunidades que devem unir a humanidade", diz a manifestação.

A partir da ocorrência, um processo será aberto e a rádio e o comunicador serão chamados para depor sobre o caso.