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Pedro Antunes | Juliette é cobrada como se a felicidade do Brasil dependesse dela; por quê?

Pedro Antunes | Juliette é cobrada como se a felicidade do Brasil dependesse dela; por quê?

Na semana passada, Juliette Freire, vencedora do BBB 21, cantou com Gilberto Gil.

Foi um bafafá danado. Vídeos, tuítes, posts em Instagram e matérias publicadas guerreavam sobre a presença da advogada e maquiadora no Arraial transmitido ao vivo ao lado de um dos maiorais da música brasileira.

Reclamaram de afinação e debateram a validade artística da presença da nova queridinha do Brasil naquela prestigiada (e invejada) posição de cantar com Gil.

No fim, enquanto a internet caía matando em um debate infindável, Gil chorava de ver Juliette ali emocionada também. E isso não é pouco.

Outra semana, mais uma live. No sábado (19), Juliette fez uma participação no Arraiá do Safadão. Cantou (melhor do que na live do Gil, inclusive), mas a interpretação dela levou pancada de novo.

Aliás, dessa vez foi pior.

Juliette é cobrada por um nível de profissionalismo como cantora que não condiz com o que ela "prometeu" entregar.

Aliás, a única coisa que Juliette fez foi cantar durante a estadia em Curicica, no BBB 21. O mundo aqui fora que projetou nela uma excelência que nunca existiu.

Juliette não é cantora profissional. Não ainda. Ter mais de 31 milhões de seguidores a configuram como uma pessoa pra lá de influente e desejável para qualquer ação.

O engajamento que ela traz é excepcional e explica sua presença em eventos como estes em que números são fundamentais para anunciantes.

E mais: diga-me outro artista da música de hoje que seja capaz de entregar mais engajamento do que Juliette nestas lives.

De novo, número de likes, comentários e etc não significam talento, mas explica os convites. Atacá-la por aceitar as participações é culpar quem é inocente nesta história.

Veja bem: consigo imaginar outras sete cantoras que poderiam ocupar (e bem) o lugar de Juliette nestas lives, mas entendo quais são as regras deste jogo.

O que nos leva ao segundo problema da live com Safadão, que foi a alegada aglomeração de pessoas no estúdio, justamente no dia em que o Brasil atingiu a terrível marca de 500 mil pessoas mortas pela covid-19.

Claro que foi uma infelicidade sem tamanho. É óbvio que não é um bom exemplo. E evidentemente o dia 19 de junho será uma mancha na história do Brasil.

Mas quem deveria ser cobrado pelos 500 mil mortes está lá em Brasília comendo pão com leite condensado no café da manhã, não uma vencedora de reality show que está realizando o sonho de cantar com seus ídolos porque virou um fenômeno de popularidade.

A quantidade de posts de "decepcionados" que cobravam "sensatez" de Juliette me fazem imaginar se a vencedora do BBB 21 assinou, em algum momento, um contrato de fada sensata-mor, de rainha da sabedoria, de Madre Tereza moderna ou de nova santa a ser canonizada pelo Vaticano.

Até onde eu sei, ela não assinou nada, não.

Isso não significa que erros como a tal aglomeração em um dia tão terrível (como todos têm sido todos desde o início da pandemia) seja aceitável, mas é um erro como tantos outros que a gente viu durante a pandemia, como de YouTuber jogando futebol com amigos e cobrando distanciamento nas redes sociais depois. Calma.

Exigir excelência no canto, é irresponsável. Que ela seja perfeita em tudo, além de perigoso é doentio. De onde veio isso? Juliette carrega a felicidade do País nas costas, por acaso?

Juliette vai errar. E muito. Vai desafinar. E bastante. São as imperfeições que fazem dela humana. E o que a transformaram em personagem tão interessante a ponto de extrapolar as expectativas criadas durante a jornada pelo BBB 21.

Talvez ela se torne uma cantora das boas e eventualmente se assuma um posto de salvaguarda dos bons costumes e boas práticas exigidas pela patrulha da web. Por enquanto, ela é só Juliette.