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Opinião - Nina Lemos | Após publi do governo, influencers choram; faltou ser profissional

Opinião - Nina Lemos | Após publi do governo, influencers choram; faltou ser profissional

Imagine a cena. A presidente de uma empresa comete um erro terrível, que pode resultar na morte de pessoas. Para piorar, o erro foi cometido com dinheiro do governo. O que ela faz quando é descoberta? Assume a responsabilidade? Não, ela chora como uma criança de quatro anos, se fazendo de menina ingênua que foi enganada. Já pensou algo assim acontecer? Absurdo, não?

Pois foi exatamente o que aconteceu ontem depois que veio à tona, por meio de uma reportagem da Agência Pública, que influenciadores teriam recebido dinheiro do governo para fazer propaganda de atendimento precoce em redes sociais.

A reportagem divulgou que a ex BBB Flávia Viana e os influenciadores Jessika Taynara, João Zoli e Pam Puertas receberam R$ 23 mil cada do governo para fazer a tal campanha (de tratamentos que não só não são efetivos, como podem matar).

Nas redes, Flávia e Jessyka reagiram às críticas chorando. "Eu nunca me envolvi com política", "Não me interpretem mal, de coração'' disse Flávia Vianna aos prantos. Jessyka também chorou muito: "só queria ajudar", disse.

Nada contra o choro, muito pelo contrário, mas a reação delas parecia de colegiais que foram pegas colando. Só que elas não são mais crianças, são adultas que lucram, e muito. Segundo reportagem no UOL, uma influenciadora pode ganhar entre 30 mil reais a 500 mil reais por mês para divulgar produtos em redes sociais. Ou seja, essas pessoas são empresárias de sucesso, algumas com orçamento maior que o de uma empresa de médio porte.

Na hora de lucrar, elas parecem se comportar como adultas, já que ganham dinheiro de gente grande. Já na hora de assumir responsabilidade, vão fingir que são menininhas indefesas? Vão apelar para o estereótipo machista da mulher bobinha que "olha, veja bem, não sabe o que está fazendo?"

Seria mais aceitável que as influenciadoras arcassem com a responsabilidade, pedissem desculpa sem choro e aceitassem as consequências (perda da credibilidade, de contratos). Assim é a vida, oras!

O fato poderia servir também para que influenciadores de todo o país entendessem o tamanho da responsabilidade que carregam, já que a profissão deles é justamente "influenciar pessoas''.

A pandemia tem sido uma prova dura para influencers. Muitas delas vivem de vender glamour, viagens, e parecem não ter se adaptado a esse momento de privações.

Há um ano, lá no início da pandemia, Gabriela Pugliesi chorava e perdia contratos depois de dar uma festa onde, empolgada, gritou: "foda-se a vida".

De lá para cá, influenciadoras viajaram, fizeram festas e lançaram a moda da "máscara de tricô", que, obviamente, não protege contra o coronavírus. Ou seja, algumas delas se tornaram ameaça contra a saúde pública.

Claro, óbvio que existem influenciadoras responsáveis, que fazem ótimo trabalho e, inclusive, usam seu poder para conscientizar a população. Mas, infelizmente, no mercado de influencers, ainda parecem ser minoria.

Uma sugestão para as influenciadoras que aceitaram propaganda do governo e agora choram: leiam o contrato, saibam o que estão divulgando. Consultem especialistas. Ou seja, façam um trabalho sério. E engulam o choro.