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Nossa | Submarino desaparecido: como Argentina espionou famílias de tripulantes mortos

Nossa | Submarino desaparecido: como Argentina espionou famílias de tripulantes mortos

Foto: Divulgação Armada Argentina

Quase três anos depois do dramático desaparecimento do submarino argentino ARA San Juan, em novembro de 2017, um novo escândalo acaba de marcar a trágica história do submarino que levou um ano para ser encontrado, no fundo do Atlântico, com todos os seus 44 ocupantes mortos.

Nesta semana, a nova chefe da Agência Federal de Inteligência da Argentina (AFI), Cristina Caamaño, anunciou que encontrou provas de que, durante o episódio, o então governo do ex-presidente Mauricio Macri se dedicou a espionar os familiares das vítimas, que promoviam protestos diários diante da Base Naval de Mar del Plata e frequentes passeatas, em vez de se concentrar nas buscas do submarino desaparecido.

"No lugar de dedicar todas as energias para encontrar o submarino e amparar as famílias das vítimas, o governo as espionava", indignou-se o atual ministro da Defesa do país, Agustín Rossi, após a informação vinda da AFI.

"Isso é muito perverso", completou o pai de uma das vítimas, Luis Tagliapetra, ao jornal El Pais.

Fotos, nomes e sobrenomes

O objetivo da espionagem era, sobretudo, o de antecipar ao então presidente Macri os movimentos e questionamentos que os familiares das vítimas iriam fazer nos protestos, como forma de preparar o governo para respondê-los – algo que vai contra a lei argentina, que só permite esse tipo de atividade mediante autorização judicial. E nenhum juiz havia autorizado.

Em um dos arquivos da época encontrados pela AFI, há relatórios emitidos no dia 3 de fevereiro de 2018 que antecipavam ações que os manifestantes iriam promover no dia 6, portanto, três dias depois, com detalhes como os nomes dos familiares e até o que eles iriam dizer no protesto, o que faz supor que haviam agentes do governo infiltrados entre os parentes das vítimas, que pressionavam o governo argentino por ações eficazes na busca do submarino.

A espionagem teria se tornado ainda mais intensa nos dias que antecederam um encontro entre algumas famílias com o presidente Macri, na Casa Rosada, sede do governo argentino.

Em vez de se concentrar na busca do submarino, o governo argentino gastava tempo espionando as principais vítimas da tragédia, que eram os parentes dos tripulantes do submarino desaparecido.

Nos documentos, segundo a AFI, "há fotos de parentes, com nome e sobrenome", e os relatórios registraram tópicos que seriam abordados nos protestos, com pontos sensíveis ao governo.

"Nós já suspeitávamos"

As provas sobre a espionagem, no entanto, não surpreenderam a maioria das famílias das vítimas do submarino.

"Nós sempre suspeitamos que eles estavam nos espionando", diz Lourdes Melian, mãe de uma das vítimas. "Vinham pessoas fazer perguntas para nós, como se fossem jornalistas. Especialmente uma mulher, que aparecia com frequência nos nossos encontros, em frente à Base Naval. Mas começamos a estranhar porque nada saía publicado".

A bisbilhotagem também era muito praticada por meios eletrônicos e nas redes sociais.

"De vez em quando, o meu celular ligava sozinho, e andaram sumindo fotos e mensagens", diz Isabel Polo, que perdeu o irmão na tragédia.

"Mensagens que eu nem havia lido sumiam do meu celular e eu só descobria isso muito tempo depois", diz também Luis Tagliapetra, pai de um dos marinheiros mortos.

"Houve uma ocasião que eu estava com o telefone desligado, porque estava em uma audiência, e, ao religar o aparelho, surgiram diversas mensagens de segurança, dizendo que haviam tentado acessar meus e-mails. Nós chegamos a denunciar a suspeita de espionagem, mas ninguém fez nada", completa Tagliapetra, que é advogado.

Nas redes sociais, o acompanhamento era ainda mais intenso.

"Tenho certeza que andaram checando minhas páginas na Internet", garante Rosa Rumi, cujo filho também estava no submarino.

De acordo com uma advogada que agora representará as famílias no caso das espionagens, "as ações se intensificavam todas as vezes que membros do governo planejavam ir a Mar del Plata, especialmente o presidente Macri e isso não era coincidência".

"O que eles achavam? Que iríamos explodir uma bomba ou qualquer coisa do gênero? Nossos atos de protestos sempre foram pacíficos. Não havia o menor sentido em nos seguir como se fossemos terroristas", diz, indignada, Lourdes Melian.

Com base nisso, a atual direção da AFI agora quer que o ex-presidente Macri seja ouvido, embora poucos acreditam que isso possa acontecer, uma vez que até a própria ação judicial que investiga as responsabilidades penais do acidente está parada há tempos.

Como foi o caso

Foto: Divulgação Armada Argentina

O dramático desaparecimento do ARA San Juan durante uma navegação de volta à Base de Mar del Plata, com 44 homens a bordo, chocou a Argentina, e, durante meses, deixou o mundo angustiado com as buscas infrutíferas ao submarino – que, afinal, só foi encontrado um ano depois, com claros sinais de ter sofrido uma explosão que, até hoje, não se sabe o motivo (clique aqui para relembrar esta história e conhecer os detalhes deste caso nunca totalmente explicado).

No começo, o governo argentino demorou demais para admitir o sumiço do submarino, omitindo isso aos familiares. Depois, em vez de apoiá-los, passou a espioná-los, como revelou a bombástica declaração da Agência de Inteligência do próprio governo, em mais um de tantos escândalos que a Argentina, tal qual o Brasil, costumeiramente produz.