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Marina Mathey | Conheça as pessoas trans presentes nas Olimpíadas

Marina Mathey | Conheça as pessoas trans presentes nas Olimpíadas

Neste ano de 2021 podemos presenciar um marco na história das Olimpíadas. Quatro pessoas trans representando diferentes países em diferentes esportes. Uma polêmica circunda essas pessoas na competição: é justa a presença delas por questões "biológicas"? Aqui, além de responder essa pergunta muito baseada na desinformação da população em geral - e na transfobia institucional do meio esportivo - quero apresentar a vocês essas que com muito esforço e competência estão quebrando barreiras.

No futebol tido como feminino temos a presença de Quiin, pessoa não-binária que compõe a seleção do Canadá. Apesar de estar competindo na categoria feminina - dado que ainda não temos categorias divergentes das binárias masculina/feminina - é acolhide pela equipe, que apoiou e deu suporte em sua transição de gênero. Hoje, se identificando pelos pronomes neutros (em inglês they/them e em português elu/delu) não apenas se torna uma figura representativa e importante no esporte, abrindo caminhos para mudanças estruturais, como também nos proporciona a felicidade de ouvir narradores utilizando o pronome neutro quando elu está jogando, mostrando a importância do respeito às identidades não-binárias.

No skate temos Alana Samith, também pessoa não-binária, que competiu representando os Estados Unidos da América. Alana não apenas quebrou os paradigmas nesse esporte que passa a integrar as competições olímpicas neste ano por sua identidade de gênero, mas também por ser uma pessoa gorda, contrariando a ideia normativa de que magreza é sinônimo de saúde e preparo físico e ser gorde o contrário disso. Infelizmente Alana não chegou a se classificar para as finais, onde nossa pequena Rayssa Leal levou a medalha de prata, mas com certeza firmou seu ponto na história por sua presença.

Chelsea Wolfe, mulher trans ciclista, também dos EUA, está representando o país como atleta reserva. Caso uma das outras duas competidoras principais do país não possam competir por algum motivo, ela assume o posto.

Outra mulher trans presente nas Olimpíadas de Tóquio é Laurel Hubbard. Ela é a sétima colocada no ranking mundial feminino de levantamento de peso e sua presença vem causando polêmica entre pessoas do ramo esportivo. Quando o assunto é força física há muitos rumores de que a presença de mulheres trans em competições femininas seja desigual, calcando as críticas no argumento de que a estrutura física delas é diferente das competidoras cisgêneras. Muitos insistem em teimar nesse argumento, porém basta um pouco de informação para compreendermos que a raiz do problema é a mesma de sempre - a transfobia. Devido à hormonização das atletas trans o índice de massa muscular, óssea e seu desempenho em geral é bastante alterado, no sentido de se equipararem aos corpos cis. Existem regulamentos que já reconhecem os dados médicos e permitem que mulheres trans compitam em categorias femininas desde que correspondam a determinadas taxas limite de testosterona no corpo e de massa muscular, por exemplo.

Laurel vem passando por inúmeros preconceitos socialmente e institucionalmente por ser uma mulher trans em uma competição que tem como foco a força física, porém é lindo ver sua presença esse ano nas Olimpíadas. No Brasil pudemos acompanhar nos últimos anos a batalha de Tifanny Abreu, abrindo caminhos para mulheres trans no vôlei. A jogadora vem passando há tempos pelas mesmas críticas que acometem Laurel Hubbard. Um ponto curioso é que Tifanny é um grande destaque do vôlei brasileiro, e isso tem aberto margem para os apontamentos transfóbicos sobre seu desempenho como jogadora. É importante olharmos para o fato de que talvez, se ela não fosse tão boa quanto é, possivelmente as críticas seriam outras - dado que elas jamais deixariam de existir nos tempos atuais - mas como ela é uma jogadora de destaque tentam constantemente desqualificá-la por ser trans, sem levar em consideração que mulheres trans que fazem tratamento hormonal chegam muitas vezes há ter seu rendimento reduzido a números menores do que de mulheres cisgêneras.

Tiffany infelizmente não foi convocada para as olimpíadas em 2021, porém está servindo de exemplo para que outras de nós se sintam encorajadas a seguir seus sonhos no esporte. Outro atleta que deixou de competir em Tóquio foi Chris Mosier, homem trans estadunidense e triatleta. Chris competiu no ano passado nas provas olímpicas para a marcha atlética masculina de 50 km, mas teve que desistir das olimpíadas devido a uma lesão.

Não podemos dizer que essas pessoas são os primeiros atletas trans a participar dos jogos olímpicos, pois vários atletas já deixaram de publicizar sua transgeneridade para poder competir, mesmo que em categorias que não correspondessem à sua identidade de gênero - nesses casos sem o uso da terapia hormonal. Em 2021 podemos pela primeira vez acompanhar um marco histórico onde ao menos quatro atletas estão competindo em Tóquio com suas identidades trans publicizadas. Que isso encoraje outras pessoas trans e possibilite oportunidades em suas carreiras esportivas, assim como elas também movimentem mudanças no pensamento das pessoas e nas regras dos esportes, que por muitos anos continuam reforçando a binaridade e um padrão físico que, mesmo para a cisgeneridade, é bastante restrito.

Por mais pessoas trans nos esportes. Por mais pessoas gordas competindo. Por menos racismo e pelo direito de vermos pessoas dos mais diversos tipos e gêneros seguindo seus sonhos com apoio e incentivo.