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M. Pichonelli | Boca Livre celebrou amizade até sucumbir à onda bolsonarista

M. Pichonelli | Boca Livre celebrou amizade até sucumbir à onda bolsonarista

Três dos quatro integrantes do Boca Livre anunciaram a saída do grupo por divergências ideológicas com o cantor e instrumentista Maurício Maestro, um dos muitos brasileiros atravessados pelo bolsonarismo. O limite, segundo o músico David Tygel, o último a apagar a luz, foi a postura antivacina do agora ex-companheiro, que se converteu em fã de Allan dos Santos e Olavo de Carvalho, tornando o convívio entre eles inviável. Antes, Lourenço Baeta e Zé Renato já haviam desistido do colega e do projeto de mais de 40 anos.

A notícia é um baque para quem acompanha a trajetória de um grupo que cantou a amizade até em nome de disco.

Daqui em diante, vai ser difícil ouvir uma cantiga e sair por essa vida aventureira sem se perguntar como deixamos as instituições apodrecerem por dentro — inclusive as musicais. Interpretações de músicas que resgatam a inquietude e um certo espírito idílico da juventude, como "Toada", "Canção da América", "Panis et Circenses", "Cruzada", "Bola de gude, bola de meia" ou mesmo as infantis "O Vento" e "A Casa", parecem agora tomadas pela ferrugem do ressentimento e da sensação de que não, não estamos nem perto de deixar as desavenças de lado para chegar a um consenso. Nem tem mais criança para segurar a mão do adulto toda vez que ele balança.

Essa sensação virou a marca do Brasil dos anos recentes, um Brasil dividido, silenciado, pouco generoso e órfão das melhores trilhas sonoras. Por ironia, a única interpretação do grupo que parece fazer sentido agora é a de "Rio das Pedras".

"É impossível conciliar a arte e a vida num momento em que você está defendendo uma posição que não é nem uma questão de política, é uma discussão de genocídio", disse Tygel. A declaração traz embutido um dos muitos nós górdios dos tempos atuais: o que se passa na cabeça de um artista a ponto de se identificar com quem mais despreza a essência do seu trabalho?

O bolsonarismo, afinal, é o atestado de óbito da sensibilidade humana. Só quem já está morto por dentro pode normalizar alguém que lamenta o surgimento de uma vacina e diz "e daí" ou "todos vamos morrer um dia" no meio de uma pandemia. As sentenças são uma pá de cal e cimento a tudo o que a humanidade foi capaz de produzir para não ser destruído pela própria miséria. Das sinfonias ao teto da Capela Sistina.

Como um vírus, o bolsonarismo não produz estragos apenas entre seus apoiadores fanáticos. Faz estragos também entre os que se engajam em rebater a profusão de bobagens produzidas pelo capitão.

Ninguém é capaz de escrever um novo "Guerra e Paz" com o nariz enfiado no celular explicando que, por Deus, soltar o intestino a cada dois dias não vai causar impacto no meio ambiente, que não dá para salvar soldado ferido na guerra com uma transfusão de água de coco, que a solução para o Brasil não é matar 30 mil, que vermífugo não serve para "tratamento precoce", que uma doença que já matou 210 mil pessoas não diferencia quem enfrentou a pandemia como homem ou como bundão, que vacina não transforma ninguém em jacaré e que o selo de "imbrochável" não será suspenso por tomar cuidado, usar máscara e respeitar o distanciamento social.

Por tudo isso, a debandada dos integrantes do Boca Livre é compreensível. A vida é o que nos acontece enquanto estamos ocupados rebatendo os negacionistas.

Se Beethoven estivesse vivo na virada dos anos 2010 para 2020, a Nona Sinfonia seria hoje apenas uma inspiração abortada pela vontade de bater a cabeça na parede toda vez que alguém abre a boca para falar sobre ideologia de gênero e globalismo.

A incompatibilidade entre pensar, sentir e se expressar ou repetir a ladainha da destruição bolsonarista parece tão clara que chega a ser tentador imaginar que a classe artística é a última espécie imunizada ao bolsonarismo e vice-versa. Isso porque um autômato incapaz de sentir chegou à Presidência sem que ninguém saiba o que o emociona ou o faz sentir frio na barriga além dos versos de seu livro de cabeceira em que um torturador confesso explica que matou foi pouco.

Um artista convertido ao bolsonarismo é sempre uma contradição em termos. Maurício Maestro é um deles, mas não está só.

Alguns, como Raimundo Fagner, conseguiriam despertar a tempo, mas será sempre um desafio entender como alguém que só queria ter do mato um gosto de framboesa não percebeu que o candidato da arminha com a mão não pensaria duas vezes em metralhar, passar o trator, a boiada e os grileiros sobre os canteiros celebrados em uma de suas mais belas músicas.

Antes de fazer cosplay de ideólogo nazista, o ex-secretário da Cultura Roberto Alvim era um dramaturgo respeitado e sua sucessora, Regina Duarte, ainda era lembrada como a namoradinha do Brasil até demonstrar o quanto (não) sentia pelos mortos pela covid-19 e pela ditadura, que levou ao cárcere tantos colegas.

Nos sacos de esqueletos que ela e tantos outros se negam a assumir e carregar, cabe também nossa falência simbólica. O fim do Boca Livre, após 40 anos de sucessos e amizade, é mais uma baixa a debitar na conta de um projeto político ancorado na destruição.