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Josias de Souza | Sigilo sobre a visita de Pompeo inspira suspeita

Josias de Souza | Sigilo sobre a visita de Pompeo inspira suspeita

As duas coisas mais perigosas do mundo são a imprensa livre e a consciência bem informada. Juntas, elas estremecem as mais sólidas hipocrisias. Para fugir dessa mistura, o Itamaraty decidiu manter em segredo até 2035 as informações sobre a visita que o secretário de Estado americano Mike Pompeo fez a Roraima em setembro. A providência inspira suspeitas insondáveis.

Em passagem relâmpago pela cidade de Boa Vista, Pompeu trouxe para o Brasil a campanha à reeleição de Donald Trump. Ao lado do antichanceler brasileiro Ernesto Araújo, ele visitou o centro de acolhida de refugiados venezuelanos. Queria ver e, sobretudo, ser visto. Distribuiu bordoadas retóricas no ditador venezuelano Nicolás Maduro.

Pompeo exibiu sua melhor pose não para os repórteres, mas para a equipe de campanha de Trump. Criticou a ditadura venezuelana em timbre ácido. Foi como se desejasse afagar o eleitorado latino da Flórida. Numa disputa presidencial renhida como a que ocorre nos Estados Unidos, pode fazer diferença.

Chamado a se explicar no Senado, o antichanceler brasileiro cuidou de desmistificar a coisa: "Mike Pompeo me telefonou informando que estava organizando uma visita a países da América do Sul e que queria vir ao Brasil, visitar as acomodações da Operação Acolhida. Eu disse que achei excelente."

Valendo-se da Lei de Acesso à Informação, a Folha requisitou cópias dos documentos relativos à visita de Pompeo —das mensagens preparatórias às conclusões posteriores. E o Itamaraty informou que o papelório foi classificado como "secreto". Significa dizer que só virá à luz dentro de 15 anos.

O brasileiro em dia com o fisco —esse sujeito de quem o governo arranca tudo à força antes de chamar de contribuinte— tem o direito de indagar: por que uma visita tão trivial, combinada num telefonema amistoso, envolve tanto segredo?

Na campanha de 2018, Bolsonaro prometera relações internacionais "sem viés ideológico". A diplomacia "sem viés" revelou-se tão enviesada quanto a política externa do petismo, só que com o sinal trocado. Bolsonaro mantém com Trump um relacionamento que segue o modelo Lula-Chávez. Ou Dilma-Maduro.

Nesse tipo de diplomacia acrítica, seja qual for o viés, o interesse nacional costuma ser a primeira vítima. Ao recorrer ao esconde-esconde, o Itamaraty estimula a suspeita de que o prejuízo é maior do que se imagina.