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Investimentos | Preço do urânio sobe 33% em menos de um mês; o que explica essa disparada?

Investimentos | Preço do urânio sobe 33% em menos de um mês; o que explica essa disparada?

Desconhecido por boa parte dos investidores, o preço do urânio disparou no mundo, passando de US$ 30 para cerca de US$ 40 a libra em menos de um mês, um aumento de mais de 30%. A alta é puxada pela procura por energia nuclear, principalmente pela China. As usinas nucleares usam o minério para gerar energia.

Apesar do avanço, a cotação do urânio está longe da atingida em 2011, de US$ 132.

O UOL ouviu analistas para explicar o que está por trás da valorização do minério, se o movimento deve continuar e se vale a pena investir nele. Veja abaixo o que eles disseram.

Demanda por energia é um dos fatores da alta demanda

"Para entender a variação de valor do urânio, a gente tem que voltar um pouco na história. A gente teve aquele acidente em Fukushima, em março de 2011. Desde então, caiu mais ou menos em 78% a cotação do urânio. Porém, na China há uma crise energética por conta de uma onda de frio. O preço do carvão, principal fonte de energia do país, não para de subir", afirma Gabriel Ross, assessor de renda variável da Messem Investimentos.

Sobrou para o urânio como alternativa de fonte de energia. Segundo Ross, um quilo do minério é 2,2 milhões de vezes mais eficaz na produção de energia do que um quilo de carvão.

"O urânio também é 740 mil vezes mais potente que o gás natural, maior matriz energética de países europeus e da Rússia. Os benefícios sociais e econômicos são muito maiores", afirma.

Para Ross, há um processo de quebra de mitos em relação ao minério, que ficou mal visto depois do acidente em Fukushima.

"O urânio é uma fonte segura de energia. Se não é uma das mais seguras, é uma das mais limpas. Desde Fukushima criou-se uma visão negativa [do minério], mas isso tem que ser desmistificado", afirma Ross.

Ele diz que, na França, 75% da matriz energética vem da energia nuclear. "Hoje, a China é o grande catalisador", diz. O gigante asiático tem 38 usinas nucleares em operação e mais 19 em construção.

China lidera busca pelo minério

Segundo Eduardo Scheffer, sócio e especialista de produtos da B.Side Investimentos, o governo chinês está "comprometido" em investir mais no minério.

"Além disso, vários países europeus, assim como EUA e Argentina, já sinalizaram interesse em desenvolver novas usinas para geração de eletricidade", afirma.

"Com esse contexto no cenário internacional, tivemos a criação do fundo SprottPhysicalUraniumTrust (UUT), que começou a comprar urânio físico e começou a ser negociado na Bolsa de Toronto em julho deste ano. A ausência de liquidez tanto no mercado físico quanto de derivativos era tão grande, que esse movimento de compra do UUT disparou o preço da commodity", afirma.

Novos investidores começaram a se educar sobre o minério

A busca por investimentos atrelados ao minério antecipou uma mudança estrutural na oferta e na demanda do metal. Isso fez com que o preço no mercado do urânio fosse de US$ 30 por libra para US$ 40 por libra, em menos de um mês. Por isso, para muitos, o mineral é considerado o "novo petróleo".

Apesar disso, os especialistas fazem uma ressalva: ainda há muito estoque do minério, portanto a ascensão do preço pode levar ainda algum tempo para acontecer. Dependerá de quanto a demanda por energia nuclear crescerá nos próximos anos. Por enquanto, o mercado está comprando urânio que está em estoque, ao invés de minerar.

Como investir em urânio?

Para os investidores brasileiros, existem poucas opções de como investir em urânio. Na Bolsa de Valores brasileira não tem como fazer investimentos diretos, mas é possível investir por meio de ETFs, fundos que acompanham algum índice. A Vitreo, por exemplo, possui um fundo de investimentos dedicado ao minério para investidores interessados, Vitreo Urânio.

O fundo tem ações de empresas globais vinculadas à extração e à exploração do urânio, como Cameco Corp, NAC Kazatomprom e NexGenEnergy, por exemplo.

"O risco em investir em ações vinculadas ao urânio é extremamente alto. Por isso recomendamos alocar apenas uma pequena parcela de seu patrimônio", afirma Rodrigo Knudsen, gestor da Vitreo.

Investir no minério no longo prazo pode ser vantajoso

Os analistas são otimistas em relação ao mercado de urânio.

"Hoje, a economia está muito mais robusta. O cenário energético necessita muito mais de energias mais limpas. É uma tendência no mundo inteiro, e isso está impactando o preço do urânio", afirma Ross, da Messem Investimentos.

"As mudanças climáticas estão colocando em cheque a capacidade de as fontes renováveis tradicionais (hidráulica, solar e eólica) em fornecer energia de forma confiável. No Brasil, estamos passando pela maior crise hídrica dos últimos 90 anos, causando um aumento expressivo no custo de energia elétrica e no risco de racionamento de energia", afirma Scheffer.

Para o especialista, a energia nuclear vem para preencher esse gargalo.

"Além de não emitir gases do efeito estufa, ela é perene, ou seja, não depende de fatores climáticos. Assim, com o aperfeiçoamento da tecnologia nuclear e novos protocolos de segurança, é inevitável o aumento considerável dessa matriz energética no futuro para fazer frente às necessidades energéticas globais", diz.