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Covid no Amazonas | Primeira vacinada no AM é indígena: 'Não era para eu estar aqui'

Covid no Amazonas | Primeira vacinada no AM é indígena: 'Não era para eu estar aqui'

Com a maior população indígena do Brasil, o Amazonas escolheu uma profissional de saúde e indígena como a primeira pessoa a ser imunizada contra a covid-19. O estado vive uma crise sem precedentes após aumento significativo no número de casos em decorrência da doença. A vacina foi aplicada durante apresentação oficial do Plano Estadual de Imunização pelo governador Wilson Lima (PSC), na noite de hoje.

Vanda Ortega é indígena do povo witoto. Ela tem 33 anos e é técnica em enfermagem. Nasceu no município de Amaturá, na calha do rio Solimões. Em 2002, Vanda foi a Manaus para trabalhar. Finalizou seu curso na área da saúde somente em 2013.

"Para as populações indígenas do Amazonas, esse momento representa muito para meu povo e para os 63 povos indígenas do estado do Amazonas. Esse estado, que tem a maior população indígena do Brasil, precisa ser cuidado", disse ela.

Moradora do Parque das Tribos, primeiro bairro indígena de Manaus, Vanda Ortega é atuante na luta em defesa dos povos indígenas e trabalha na rede estadual de saúde pela Fundação Alfredo da Matta. Na comunidade em que reside, ela organiza os atendimentos de saúde dos moradores.

"Nessa segunda onda de covid-19, temos, neste momento, 32 indígenas que testaram positivos. Na verdade, não era nem para eu estar aqui, hoje. Neste momento recebemos uma ligação de que tenho quatro parentes meus indo para a UPA [Unidade de Pronto Atendimento] com dificuldade respiratória". explicou, caracterizada com uma vestimenta cerimonial de seu povo.

Nossos povos historicamente são muito negados por esse sistema de poder. Mas nós queremos nesse momento histórico que essa vacina chegue para nossos povos também.
Vanda Ortega, técnica em enfermagem e primeira pessoa a ser vacinada no Amazonas

Pela segunda vez em oito meses, o sistema de saúde do estado do Amazonas tem sido falho, por causa da alta de casos e mortes provocados pela covid-19.

Governador pede 'maior quantidade possível' de vacinas

O governador do estado, Wilson Lima (PSC), agradeceu ao apoio do presidente (sem partido) durante o evento desta noite. Eles estiveram reunidos hoje, quando Lima pediu prioridade para o Amazonas na entrega das vacinas.

"Voltei a fazer apelo para que houvesse sensibilização no sentido de destinar a maior quantidade possível de doses para o estado do Amazonas. Precisamos imunizar a maior quantidade possível de pessoas", discursou. Ele fez a entrega simbólica de doses da vacina aos prefeitos presentes na cerimônia.

Wilson Lima - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Segundo o governador, parte das doses serão da vacina AstraZeneca, com origem na Índia. O Brasil tenta, desde a semana passada, o envio do imunizante, mas o país asiático afirma não poder ajudar neste momento, apenas futuramente.

Também serão utilizadas doses da CoronaVac, vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac junto ao Instituto Butantan, em São Paulo. A remessa ao estado será em torno de 256 mil unidades, de acordo com o governo local.

Wilson Lima aproveitou o discurso e se solidarizou com as famílias das vítimas da pandemia. "Nossa luta nos últimos dias tem sido árdua porque os casos aumentaram significativamente no estado do Amazonas de uma maneira excepcional, resultado de uma série de fatores que estão sendo investigados", disse.

O político garante ter ficado "em alerta" quanto ao abastecimento de oxigênio, mesmo que o insumo tenha acabado nos hospitais administrados pelo estado e os pacientes ficaram sem ar. Parte dos doentes morreu, conforme relato dos profissionais da saúde manauara.

"A gente tem total segurança de que esse produto não vai faltar", disse, ao citar 150 m³ de oxigênio comprados junto a uma empresa privada. Enquanto o reabastecimento não ocorre, o político confirmou transferências de pacientes para hospitais de outras capitais, como Belém, Teresina, São Luís, João Pessoa e Goiânia ao longo desta semana.

Sepultamentos batem recorde

Em um mês, o número de sepultamentos em Manaus cresceu 193% em meio à explosão do número de infectados pelo coronavírus no Amazonas. No dia 6 de dezembro, por exemplo, foram registrados 31 enterros na capital, número que subiu para 91 no último dia 5.

Por causa do aumento dos casos de covid-19, o prefeito de Manaus, David Almeida, decretou estado de emergência em Manaus pelo período de 180 dias para conter o avanço da pandemia na capital amazonense.

Na quarta-feira, da semana passada, foram 110 mortes por covid-19 entre as causas de óbitos no total de sepultamentos nos cemitérios de Manaus, superando a marca das cem mortes por coronavírus registrada em maio de 2020.