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Espaço | Microfone em sonda prova: há um jeito do som se propagar no vácuo

Espaço | Microfone em sonda prova: há um jeito do som se propagar no vácuo

Clássico do cinema, a ficção científica "Alien, o Oitavo Passageiro", surgiu em 1979 acompanhada do slogan "no espaço, ninguém pode ouvir você gritar". Mas um microfone instalado na sonda Perseverance, da Nasa, tenta provar que não é bem assim.

Calma, de fato o som não pode se propagar no espaço, pois existe o vácuo. Como não há moléculas no ambiente, as ondas sonoras não são transmitidas. O resultado de um grito, por exemplo, seria o silêncio. Mas isso não quer dizer que nenhum som pode ser captado fora da Terra.

A Nasa divulgou os sons obtidos pelo EDL, aparelho que vai capturar o que for possível durante a sequência de entrada, descida e pouso da Perseverance em Marte, prevista para fevereiro do ano que vem.

O áudio divulgado pela agência espacial americana possui 60 segundos e foi coletado em meados de outubro durante testes de captação de imagens e sons do equipamento, que registrará a descida na cratera Jezero.

De acordo com a agência norte-americana, o zumbido que pode ser ouvido vem da bomba de fluido de rejeição de calor do veículo espacial, localizada na parte de trás da sonda. A bomba é responsável por manter as temperaturas da sonda operacionais "nas noites frias", circulando fluido por meio de um trocador de calor.

"Com desculpas à pessoa que criou o slogan para 'Alien', acho que você poderia dizer que no espaço ninguém pode ouvir você gritar, mas eles podem ouvir sua bomba de fluido de rejeição de calor", afirmou Dave Gruel, engenheiro chefe do subsistema de câmera e microfone EDL da missão à Nasa.

"O microfone que incluímos para ouvir como é pousar em Marte foi realmente capaz de captar o sistema térmico da Perseverance operando no vácuo do espaço por meio de vibração mecânica", completou.

A sonda Perserverance é equipada com microfones - Divulgação/Nasa - Divulgação/Nasa
A sonda Perserverance é equipada com microfones
Imagem: Divulgação/Nasa

O vácuo do espaço não é um ambiente exatamente ideal para as transmissões de som. Mas isso não significa que ele não encontre outro caminho.

Isso porque as ondas sonoras podem viajar se propagando por objetos sólidos e, quando essas vibrações mecânicas são registradas por um componente elétrico (o microfone do rover), às vezes são transformadas em um sinal elétrico.

Trazendo para nossa realidade, alguma vez você estava ouvindo música com fones de ouvido e ouviu um barulho estranho quando o fio do fone encostou em alguma superfície? Pois é exatamente esse ruído que foi captado pelo microfone do Perseverance.

Segundo a Nasa, o arquivo de som obtido foi processado pela DPA Microphone, da Dinamarca, empresa responsável pela fabricação do microfone EDL.

"Por melhor que seja pegar um pouco de áudio em operações de espaçonaves em voo, o arquivo de som tem um significado mais importante. Isso significa que nosso sistema está funcionando e pronto para tentar gravar parte do som e da fúria de um pouso em Marte", afirmou Gruel.

A Nasa afirma que o microfone não foi fabricado especialmente para esta missão ao Planeta Vermelho. Por isso não é possível determinar o que esperar dos arquivos de áudio.

"Obter o som do pouso é algo bom, não uma necessidade. Se isso não acontecer, não vai impedir a missão da sonda de descoberta na cratera de Jezero. Se até mesmo uma parte da sequência de pouso for capturada em áudio, isso já seria incrível", explicou o engenheiro.

Segundo a Nasa, os microfones trarão mais uma experiência sensorial às explorações no Planeta Vermelho. Isso porque os robôs enviados para Marte nos deram a experiência da visão (por meio das câmeras), mãos, braços e pés robóticos forneceram uma sensação próxima do tato, e os sensores químicos e minerais permitiram provar o "cheiro" do planeta.

O EDLpermitirá aos cientistas ouvirem a fricção da atmosfera do planeta, os ventos e os sons da poeira deslocada conforme o veículo espacial pousa.

Já o segundo microfone faz parte de um conjunto de elementos chamado de SuperCam. Essa tecnologia vai identificar minerais e rochas em busca de compostos orgânicos que permitam estudar a possível existência de vida em Marte em algum momento de sua história.

O SuperCam tem um laser que pode atingir pontos minúsculos dos objetos e sua câmera tem a capacidade de examinar a formação química das rochas. Quando ele dispara um laser, uma pequena quantidade da rocha vaporiza em um gás quente chamado plasma, e o calor e a vibração criam uma onda de choque que produz um som de estouro.

"A câmera e o espectrômetro do SuperCam podem 'ler' o gás quente para revelar a composição química da rocha vaporizada", afirma a Nasa.