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Elânia Francisca | Reconectar-se à natureza é uma urgência

Elânia Francisca | Reconectar-se à natureza é uma urgência

Desde o começo do isolamento social devido a pandemia da covid-19, muitas pessoas tem buscado formas de promover o autocuidado por meio de atividades terapêuticas. Algumas cozinham, outras leem, fazem cursos. Mas há um número significativo de pessoas que tem vivenciado processos de cultivo de plantas em suas casas. Eu mesma tenho me dedicado ao cuidado de um caroço de abacate que germinou recentemente, após quase seis meses imerso na água.

Curiosa que sou, perguntei para algumas pessoas o que elas sentiam quando cuidavam de suas plantas e as respostas sempre giravam em torno de duas questões: o prazer em reconectar-se com a natureza e a felicidade ao observar o crescimento das plantas cultivadas.

Eu moro na cidade de São Paulo e por aqui há uma ideia esquisita de que reconectar-se com a natureza é ter um vasinho de planta no canto da sala ou fazer uma trilha, acampar com os amigos de vez em quando para se distrair. A meu ver, a natureza nesse caso não é vista como algo do qual fazemos parte, mas é um objeto de enfeite ou de lazer. É algo que eu uso, mas não é algo que eu sou.

Quero salientar que nas regiões periféricas da cidade, nossa conexão com a natureza ainda é preservada graças à existência e resistência de raizeiras(os), benzedeiras(os) e outras pessoas que mantém viva nossa ancestralidade afro-indígena e respeito à Mãe Natureza e nossas irmãs, as plantas.

Chamar uma planta de irmã pode soar estranho para nós que estamos nesse descolamento e esquecimento de que somos parte da natureza, e não superiores a ela. Não se trata de folclore, bobagem, ingenuidade ou algo do tipo. Trata-se de um exercício de reconexão com a natureza, nos entendendo como parte dela e não como meros e frios consumidores. Aproximar-se da natureza e buscar reconexão faz com que nossos olhares não deixem passar batido o fato de o pantanal estar em chamas e nosso céu estar carregado de morte. Esse movimento de reconectar faz com que pensemos: nossos irmãos estão morrendo, nós estamos morrendo. O que faremos com relação a isso tudo?

Quero sugerir que leiam o livro do Ailton Krenak chamado "Ideias para adiar o fim do mundo" (Companhia das Letras), no qual ele propõe uma reflexão importante sobre esse nosso descolamento da natureza e despersonalização. Ele diz:

Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista. Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas a todos

Também sugiro que conheçam a maravilhosa obra de Sobonfu Somé, "O espírito da intimidade: ensinamentos ancestrais africanos sobre maneiras de se relacionar" (Odysseus), no qual ela reflete:

Quando passamos algum tempo na natureza e nos afastamos da rotina mundana, aquela parte de nós que ouve os seres naturais encontra permissão para ouvir, e podemos encontrar nossa conexão com os espíritos

Sobre o termo "espírito", Somé explica que está se referindo à força vital que está em tudo.

Eu considero muito simbólico esse desejo de plantar e cultivar ervas em casa durante o isolamento social. É como se nosso corpo tivesse sido distanciado da nossa Mãe há muito tempo e agora, em meio à pandemia e fragilidade emocional, quisesse voltar a fazer parte desse todo que é a natureza, começando devagarzinho. Respirando fundo todas as manhãs, recebendo o sol sob a pele, sentindo seus efeitos curativos e cuidando da irmã planta...