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Bianca Santana | Educação e redes: aproveitamos as possibilidades?

Bianca Santana | Educação e redes: aproveitamos as possibilidades?

Em um país onde 47 milhões de domicílios, 59% do total, não possuem conexão à internet, pensar nas possibilidades das redes digitais na educação é algo bastante limitado. Ainda mais fora do espaço físico da escola durante a pandemia (que, vocês sabem, ainda não acabou).

Mas, mesmo em contextos onde a maior parte de estudantes e professores estão conectados à internet, parece-me predominar a tentativa de reproduzir no virtual a sala de aula e o modelo de ensino presenciais. Ou, pior, um sem-fim de textos, vídeos e testes sem sentido para quem tenta ensinar ou aprender.

Com muito respeito pelas professoras e professores que estão trabalhando ainda mais nestes tempos, fazendo o impossível com recursos limitados e muito investimento pessoal, peço licença para compartilhar algumas reflexões que sistematizei em 2010, em um debate na Campus Party sobre redes sociais e educação. Talvez ajude de algum modo.

Graças a Seu Antônio, um estudante da educação de jovens e adultos que aprendeu a ler partituras musicais sozinho, mas tinha dificuldade para escrever com lápis e papel, comecei a utilizar computadores nas aulas de língua portuguesa na educação de jovens e adultos (EJA). Graças a ele também, fiz um mestrado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, defendido em 2012, sobre usos das tecnologias na EJA.

Diante do computador, Seu Antônio, que estava na escola havia sete anos e acreditava não saber escrever, esboçou sua autobiografia em uma aula e emocionou a mim e a toda a turma. Daquele dia em diante, eu deixava meu laptop com Seu Antônio, que realizava todas as propostas de atividades com segurança. "No computador é fácil, professora. Tá tudo pronto, é só apertar", me disse uma vez. E então toda a turma queria usar o computador também.

A coordenação do projeto conseguiu a doação de 15 netbooks, que estavam chegando ao Brasil, para utilizarmos nas aulas. Foi a oportunidade para colocar o currículo escolar em debate com as estudantes, o que eu sempre sonhara, mas nunca tinha conseguido fazer. Foi a primeira possibilidade que o digital levou à sala de aula onde eu estava como professora.

A arquitetura distribuída de rede da internet pode ser um convite a pensar em novas arquiteturas para as relações na sala de aula. Na tecnologia de informação e comunicação, o modelo de cima para baixo, de um servidor que oferece informação para todos os outros, não é o único possível. A informação pode estar distribuída em todas as máquinas e passar de uma para outra, em uma rede de computadores. Na sala de aula, saberes de estudantes também podem ser estimulados e mediados por educadores de maneira mais distribuída também. E não só no discurso.

Em um primeiro momento, quando eu tentava instigar aquela turma a pensar quem definia o que se aprendia na sala de aula, sobrava para a secretária da escola e até para o Lula, então presidente da república. Com a proposta de definirmos na própria turma, muitos não se sentiam à vontade para participar da decisão. Mas por que não podiam participar da definição do que aprenderiam? Apresentei conteúdos curriculares e possibilidades do que poderíamos fazer com os computadores e a turma decidiu que queria publicar verbetes na Wikipédia e publicar seus textos, vídeos e fotos em blogs. Experiências que talvez possa relatar em outros textos.

A escrita ganhou ainda mais sentidos. Registrar as próprias histórias. Compartilhá-las com parentes que viviam em outros estados. E trabalhar a língua, a linguagem, a comunicação, a vírgula, o acento, não nos impedia de falar sobre sistemas operacionais ou direitos autorais.

Mais de uma vez fomos lembrados pelo pessoal da limpeza de que a aula tinha acabado.

"Entre nós, a educação tem de ser, acima de tudo, uma tentativa constante de mudança e de atitude. De criação de disposições mentais democráticas, através de que se substituam no brasileiro antigos e culturológicos hábitos de passividade, por novos hábitos, de participação e ingerência. Hábitos de colaboração", escreveu Paulo Freire em "Educação e atualidade brasileira", publicado pela primeira vez em 1957.

Se não for para promover colaboração, participação, diálogo, crítica, talvez não estejamos fazendo bons usos das tecnologias digitais na educação.