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Balaio do Kotscho | O que falta para o STF tornar Moro réu na Lava Jato?

Balaio do Kotscho | O que falta para o STF tornar Moro réu na Lava Jato?

De justiceiro contra a corrupção, promovido a "herói nacional" pela imprensa lavajatista; de ministro da Justiça de Bolsonaro e candidato a uma vaga no ou a presidenciável em 2022, em poucos meses foi do céu ao inferno.

A cada dia surgem novas revelações sobre as relações jurídicas incestuosas do ex-juiz federal de primeira instância com procuradores e delegados da PF, comandados por ele com mãos de ferro na República de Curitiba e que, agora, por ironia do destino, poderão transformá-lo em réu na Lava Jato.

Repousa sobre a mesa do ministro Gilmar Mendes, do STF, desde o dia 4 de dezembro de 2018, quando pediu vista do processo, .

Depois de comparar o modus operandi da Lava Jato a um esquadrão da morte e ao PCC (Primeiro Comando da Capital), a maior organização criminosa do país, o que falta ainda para Gilmar Mendes colocar esse processo em pauta na Segunda Turma do STF?

O próprio ministro já disse que não se trata mais apenas de um julgamento do HC de Lula, mas do conjunto da obra da atuação da Lava Jato, ao longo destes últimos sete anos. "O que temos é muito maior e mais grave", constata Gilmar Mendes, que agora prometeu colocar logo o assunto na pauta do STF.

Enquanto no Brasil alguns jornalistas lavajatistas ainda procuram passar o pano, admitindo apenas que houve alguns "exageros" da Lava Jato, o New York Times publicava neste final de semana um artigo arrasador do cientista político Gaspard Estrada em que escreveu um resumo da ópera:

"A Operação Lava Jato foi considerada maior investigação anticorrupção do mundo, mas se tornou o maior escândalo judicial da história do Brasil".

Estrada responsabiliza Moro diretamente pela destruição do Brasil:

"Em vez de erradicar a corrupção, obter maior transparência na política e fortalecer a democracia, a agora notória Lava Jato abriu o caminho para chegar ao poder, após eliminar seu principal rival, Lula, da corrida presidencial. Isso contribuiu para o caos que o Brasil vive hoje".

Eu já escrevi as mesmas coisas várias vezes aqui no Balaio, mas agora que saiu no New York Times, talvez o Brasil se dê conta da grande armação que foi a Lava Jato, sob o comando de um juiz sem escrúpulos, ao mesmo tempo investigador, acusador e julgador de um processo que já tinha sentença pronta antes de começar.

Fiel discípulo de Moro, o deslumbrado chefe da força-tarefa de Curitiba, Deltan Dallagnol, estava tão certo da impunidade, achando que podia tudo, que nos diálogos que agora vieram a público.

Em outubro de 2016, Dallagnol sugeriu uma reunião com o Ministério Público da Suíça sobre as investigações que tinham por alvo a Odebrecht e suas ligações com o PT.

"Acho que vale uma reunião para apresentar o problema para eles", escreveu aos seus colegas de inquisição. Um deles, Orlando Martelo Junior, chegou a se queixar do frio e da neve nesta época na Suíça.

Escreveu Dallagnol: "Pelo menos, eles darão prioridade. O ruim é que tem que ir pra Suíça... em época de neve. A solução? Você vai e já aproveita férias com a família lá".

Só com diárias e passagens para o trem da alegria da Lava Jato foram gastos R$ 7,5 milhões dos cofres públicos nestes sete anos de operação.

Mas isso era troco diante das montanhas de dinheiro que estavam em jogo. A Lava Jato se gaba de ter recuperado R$ 4 bilhões nos acordos de delação e leniência, mas só na semana passada, com a intervenção na Petrobras, Bolsonaro queimou R$ 100 bilhões em perdas no valor de mercado da empresa nas bolsas de valores.

E até hoje não se sabe o destino dado aos R$ 2 bilhões que os procuradores de Curitiba queriam destinar a uma fundação da Lava Jato para fazer campanha contra a corrupção, uma ousadia que o STF interditou.

Por tudo o que sabemos agora, a aceitação do convite feito por Bolsonaro para Moro ocupar o cargo de ministro da Justiça, "a indicar que a sua atuação pretérita estaria voltada para tal desiderato", como alega a defesa de Lula, agora não passa de mero detalhe.

Se eu fosse Sergio Moro, pediria logo asilo político nos Estados Unidos (antes de virar réu na Lava Jato), em retribuição aos bons serviços prestados ao FBI e ao Departamento de Justiça americano.

Gilmar Mendes agora promete fazer a "Lava Jato da Lava Jato", como informou Elio Gaspari em sua coluna de domingo na Folha.

Nunca se sabe o dia de amanhã. De repente, o Brasil cai numa democracia...

Vida que segue.