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Balaio do Kotscho | Bolsonaro quer ser o novo Padim Ciço do Nordeste

Balaio do Kotscho | Bolsonaro quer ser o novo Padim Ciço do Nordeste

Em mais uma investida no eleitorado do sertão nordestino, o presidente fez nesta quinta-feira um discurso de fundo religioso, como se fosse um pastor pregando aos fiéis, ao anunciar o início da obra do novo trecho de uma adutora de abastecimento de água, em São José do Egito (PE).

Embora diga que não pretende participar da campanha municipal deste ano, ele se dirigiu diretamente aos eleitores de uma plateia de cerca 300 pessoas, para que caprichem na escolha de prefeitos e vereadores.

"Vamos escolher gente que tenha Deus no coração, que tenha na alma o patriotismo e queira a liberdade e o bem do próximo", pediu o presidente, para arrematar o discurso proclamando "Deus, pátria e família", o lema do integralismo dos "camisas-verdes" de Plínio Salgado, na década de 30 do século passado, a versão nativa do fascismo italiano.

Levar água aos sertanejos assolados pela seca é uma promessa feita por políticos desde a época em que ali habitavam os devotos do Padim Ciço, como era chamado por todos o presbítero católico Cicero Romão Batista (1844-1934), uma lenda viva até hoje.

No seu novo figurino populista de "pai dos pobres", Bolsonaro mistura pregações evangélicas com sermões de Padim Ciço, um sacerdote católico conservador, com algumas pitadas de integralismo.

"Deus, pátria e família" era o lema também da natimorta legenda que a família Bolsonaro pretendia criar, a Aliança pelo Brasil.

Em vez de "Anauê!", o grito de guerra dos seguidores de Salgado, ele é recebido por toda parte aos gritos de "Mito!", que o acompanham desde a campanha eleitoral de 2018

Com os olhos agora voltados para a reeleição em 2022, Bolsonaro fez-se acompanhar de uma grande comitiva de ministros, parlamentares e lideranças da região, onde foi derrotado dois anos atrás, e agora se tornou prioritária em sua nova campanha.

A remissão a símbolos, palavras de ordem e personagens da primeira metade do século XX não acontece por acaso para quem ainda governa em clima de Guerra Fria e procura debaixo da cama comunistas americanos e europeus que cobiçam as riquezas da Amazônia.

Como a nova Bolsa Família do auxílio emergencial empacou em Brasília, por falta de dinheiro, e as "reformas estruturais" de Paulo Guedes ficaram sabe Deus lá para quando, o presidente prefere fazer viagens a um imaginário passado glorioso da ditadura militar, quando os generais também prometiam levar água ao sertão e auxílios emergenciais nas obras contra as secas.

É um filme em branco e preto que roda para trás, com o ministro Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, levando o capitão para reinaugurar obras antigas e lançar a pedra fundamental de novas adutoras.

Enquanto isso, Ricardo Salles vai passando sem dó a sua boiada em florestas, áreas indígenas, pantanais, restingas e manguezais, para criar novos desertos que vão precisar de obras contra a seca.

Daqui a 520 anos, quem sabe, alguém vai redescobrir o Brasil e começar tudo de novo, levando água a São José do Egito.

Vida que segue.