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Ana Xongani | Quando falar de sustentabilidade pode ser grande desperdício

Ana Xongani | Quando falar de sustentabilidade pode ser grande desperdício

Eu sempre me interessei por movimentos em torno da sustentabilidade — palavra que, entre picos e quedas, está sempre na "boca" da mídia e também de muita gente. Inclusive já escrevi sobre isso. E, quem acompanha esse rolê há bastante tempo sabe - ou deveria saber - que, por aqui, principalmente quando se fala de sustentabilidade ambiental, o Brasil sempre importou muitos discursos, pilares e narrativas de grandes movimentos ambientais internacionais.

Essa importação, por uma questão de acesso e linguagem, se deu a partir de um grupo muito específico - e pequeno - da população, que são as classes altas e média-altas. Pode reparar: muito do vocabulário destes movimentos está em outra língua, normalmente inglesa. A maioria das pessoas reconhecidas como grandes lideranças no Brasil e no mundo também são, em sua maioria, pertencentes a estas classes.

Isso não seria um problema, afinal movimentos ambientais podem começar e se estruturar nas classes mais abastadas. Mas, se torna um problema quando eles começam e terminam dentro deste grupo. Quando o ciclo abre e fecha dentro destas classes.

Particularmente, percebo poucas pessoas se deslocando para pensar em tecnologias, sejam elas ambientais, sociais, de consumo ou qualquer outra que sejam de fato inclusivas, não apenas numa perspectiva de quem vai consumir estas tecnologias, mas também de quem vai produzi-las - e principalmente, de quem já está desenvolvendo soluções, muitas vezes não identificadas, observadas e valorizadas porque não tem sua origem nas classes que dominam e ditam o discurso sustentável.

São as mesmas classes que acreditam deter todas as informações que fazem o ciclo de conhecimento sustentável girar e criam formas às vezes rebuscadas e às vezes muito óbvias de perpetuar esse "poder", essa dinâmica. Elitizar para dominar. Algo muito perceptível, por exemplo, na linguagem.

Por que tantos estrangeirismos nos novos nomes que pipocam nesse meio? Essa galera tá ligada que, no Brasil, menos de 3% da população é fluente em inglês, por exemplo? Por que fala-se tanto sobre inclusão, mas inclui-se tão pouco? Por que tanto esforço para dominar um conceito?

Isso não acontece apenas na questão ambiental. Mas, falando especificamente desta questão, temos contornos ainda mais complexos porque estamos falando de um território global ocupado por todes.

Então, como é possível uma parcela tão pequena da população pensar a sustentabilidade sem dialogar com outras classes, com outros grupos sociais? Como é possível pensar a sustentabilidade sem validar tecnologias que estão sendo feitas em outros lugares? Como é possível considerar que se está fazendo algo tão profundo sem entender profundamente as necessidades de outros lugares, os problemas muito concretos de outras vivências, que parecem não ter a ver, mas tem tudo a ver.

Geralmente, quando participo de diálogos sobre sustentabilidade, elas quase sempre se arrastam em sucessivas comparações com "o que tem lá fora", em outros países, com "o que tem ou não tem no aqui dentro". Quase sempre numa perspectiva "do que falta no Brasil", o que pra mim reflete nada além da incapacidade de olhar os saberes que já temos e também numa incapacidade de imergir nas questões e complexidades muito específicas do nosso território.

Mas, sabe o que entendo ser a grande questão? Se deslocar é se expor, e se expor passa obrigatoriamente por entender quem cada um de nós é neste grande ciclo. Quando você não inclui as diferenças e dialoga apenas com o seu grupo, você precisa olhar menos para si e, consequentemente, lidar menos com o seu papel social.

Em conversas que participo sobre moda e sustentabilidade, por exemplo, me parece sempre um grupo pequeno falando para outro grupo pequeno sobre outro grupo pequeno, nunca sobre o todo. Seria super ok se não estivéssemos falando de Brasil.

Neste contexto, tudo o que acompanho me parece um grande desperdício de tempo. E, né? Desperdício é o contrário do que se propõe. Se falamos de sustentabilidade não podemos sequer perder tempo em devaneios pouco inclusivos e pouco práticos, que não tragam respostas e caminhos para ações concretas, objetivas e resolutivas.

Por que, nestas classes, temos tanto porta-voz falando dos tecidos tecnológicos e praticamente ZERO falando sobre soluções para que as pessoas não morram de frio, por exemplo? Por que, nestas classes, tanto porta-voz falando de desperdício e praticamente ZERO falando da falta de alimentos em muita mesa?

Devaneios esses que vão mais proteger os indivíduos em suas próprias existências privilegiadas do que proteger o ambiente que todes nós compartilhamos. Uma grande viagem!

Quando as discussões ambientais ignoram questões sociais básicas, se tornam uma discussão incompleta e contraproducente. O que revela, mais uma vez, a forma como um grupo específico e muito pequeno segue se articulando para manter apenas para si as condições de bem viver não apenas neste país, mas neste planeta.