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Reportagem: Rafael Reis - Cavadinha em cobrança de falta nasceu em final da Euro: verdade ou lenda?

O jogador corre todo empolgado para a cobrança do pênalti. Mas, no lugar de escolher um canto e meter o pé com força, opta por dar um leve toque na parte de baixo da bola, fazendo com que ela suba e chegue ao gol adversário quase sem nenhuma força.

Se o goleiro se antecipa ao cobrador e salta para alguns dos lados, bate aquela raiva de quem sabe que sofreu um gol para lá de defensável. Agora, se ele opta por ficar no centro do gol e agarra a bola com facilidade, quem vai à loucura é a torcida do time que desperdiçou o pênalti e que certamente vai acusar o responsável pela falha de uma tremenda falta de responsabilidade.

A cavadinha em cobrança de pênalti é um dos lances mais traiçoeiros e amedrontadores do futebol. E a jogada, que normalmente deixa alguém em situação de completa humilhação, o goleiro ou cobrador, nasceu em uma final de Eurocopa.

Pelo menos, é essa a história que costuma rolar nas redes sociais e que sempre vem à tona novamente quando começa uma nova edição do torneio que reúne as seleções mais poderosas do Velho Continente.

Mas será que algum atleta seria suficientemente maluco de apresentar uma jogada com tão alto teor de "vai dar errado" justamente na decisão de umas das competições mais importantes do futebol mundial? Ou tudo não passa de mais uma das incontáveis lendas urbanas que tanto fazem sucesso no dia a dia do futebol, como o autismo de Lionel Messi e a transexualidade de Marco Verratti?

Basta uma rápida pesquisa de vídeos das finais da Euro para ver que a jogada realmente foi executada em uma partida valendo taça.

Em 1976, a decisão entre Tchecoslováquia e Alemanha Ocidental terminou empatada por 2 a 2 após o tempo normal e a prorrogação. Na disputa de pênaltis, coube Antonín Panenka a responsabilidade de executar a última cobrança.

E o meia-atacante, que na época defendia o Bohemians, clube do seu país-natal, "meteu o louco": mandou uma cavadinha, definiu a disputa e deu o primeiro (e único) título europeu da seleção que hoje se dividiu em duas (República Tcheca e Eslováquia).

O lance chocou o mundo. A palavra Panenka virou sinônimo de ousadia nos campos de futebol. O sobrenome do jogador também batiza a jogada em vários idiomas, como espanhol, inglês e francês.

Só que a técnica, eternizada nas décadas seguintes por nomes como Zinédine Zidane, Neymar, Sergio Ramos e Loco Abreu, não nasceu na Euro. Ela foi desenvolvida e aperfeiçoada pelo atacante durante dois anos em treinos do Bohemians. A disputa contra a Alemanha foi apenas a primeira vez em que ela foi apresentada ao público.

"Depois de cada treino, eu costumava disputar uma aposta batendo pênaltis contra o nosso goleiro. Como ele era muito bom, aquilo começou a ficar caro para mim. Então, comecei a pensar em formas de derrotá-lo para recuperar o que tinha perdido", afirmou Panenka, cinco anos atrás, em entrevista ao site oficial da Uefa.

A última rodada da primeira fase da Euro começa hoje, com a definição do Grupo A (Itália, Gales, Suíça e Turquia). Essa etapa da competição vai até quarta-feira. E os playoffs decisivos começam no próximo sábado.

O sucessor de Portugal no posto de campeão europeu de seleções será conhecido no dia 11 de julho. O estádio de Wembley, em Londres (Inglaterra), receberá a decisão.

Originalmente, o torneio era para ter sido disputado no meio do ano passado. No entanto, a pandemia da covid-19 fez com que ele fosse adiado em 12 meses.

A novidade desta edição é que não há uma sede fixa. Para comemorar os 60 anos do continental, a Uefa decidiu realizar a competição em 11 cidades espalhadas por 11 países diferentes (alguns que nem classificaram suas seleções).

Além da Inglaterra, sede da última partida, a Euro-2020 (sim, ela manteve esse nome mesmo com o adiamento da data) também passará por Itália, Azerbaijão, Dinamarca, Alemanha, Escócia, Espanha, Hungria, Holanda, Romênia e Rússia.