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Responsabilidade na pandemia | Kenedy: Volta de Queiroga à CPI mostra que reconvocar pode ser perda de tempo

O segundo depoimento do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, mostra que a CPI da Pandemia deve ter cuidado com reconvocações. Elas podem ser perda de tempo e foco porque os depoentes tendem a repetir as mesmas mentiras e falas evasivas.

Até as 12h17, quando houve intervalo após as perguntas do relator Renan Calheiros (MDB-AL), foi exatamente isso o aconteceu no retorno de Queiroga à CPI. Ele contribuiu pouco para responsabilizar o presidente , autoridade que deve estar no foco da comissão por dar uma resposta negligentemente homicida que resultou em mortes e infecções que poderiam ter sido evitadas. Mais gente morreu e adoeceu por culpa do presidente da República.

Na volta à CPI, Queiroga lançou dúvida sobre a eficácia da CoronaVac, uma irresponsabilidade. É criminoso falar isso no atual quatro pandêmico, porque desestimula as pessoas a se imunizar e a tomar a segunda dose.

Por agir assim, Queiroga é cúmplice do genocídio em curso porque endossa o negacionismo do presidente ao se comportar como um fantoche. Ele chegou ao cúmulo de dizer que foi o responsável pelo veto à entrada da médica Luana Araújo na Secretaria Especial de Enfrentamento da Covid-19.

Em depoimento à CPI, Luana foi clara. Disse que Queiroga lhe contou que seu nome não fora aprovado pela Casa Civil. Nesta terça, o ministro deu outra versão. Afirmou que foi decisão dele não efetivar Luana Araújo. Mentiu. Ele foi desautorizado por Bolsonaro, mostram fatos notórios.

Para não perder o cargo, Queiroga repetiu a estratégia de Eduardo Pazuello, seu antecessor no Ministério da Saúde. Ambos procuraram isentar Bolsonaro ao dizer que não receberam orientações do presidente para não comprar vacinas, no caso de Pazuello, ou vetar uma auxiliar já anunciada, situação de Queiroga.

Ele disse que "não houve óbices formais" no caso de Luana Araújo. Ora, essa resposta equivale ao "não houve ordem direta" do Pazuello.

O papel de ministro de Estado é orientar o presidente. É preciso ter a capacidade de contrariar o chefe para ser leal às instituições e à Constituição. Um ministro fantoche presta desserviço ao país. Pazuello e Queiroga agem como fantoches e também são responsáveis por agravar a tragédia da pandemia no Brasil.

Ao falar de tratamento precoce, cloroquina e ivermectina, Queiroga voltou a jogar na confusão. Repetiu a ladainha da divisão na comunidade médica. E afirmou: "Essas medicações não têm eficácia comprovada".

É mais do que isso. Não há divisão na ciência. Estudos já provaram que esses medicamentos não funcionam contra a covid-19 e podem fazer mal se tomados. Com quase 500 mil mortos por covid, não dá mais para um ministro da Saúde ficar com conversas negacionistas sobre cloroquina e ivermectina.

Queiroga também manipulou dados sobre vacinas, usando números absolutos e não relativos. Disse que o Brasil estava entre os 5 países que mais distribuíram imunizantes. Isso se deve ao tamanho da população.

Levando em conta números relativos, o Brasil está bastante atrasado na campanha de vacinação. Imuniza a conta-gotas porque Bolsonaro e auxiliares desprezaram a compra antecipada de vacina e lançaram dúvidas sobre a eficácia dos imunizantes.

Há mais de dois meses no ministério da Saúde, Queiroga jogou a conta da segunda onda de covid a uma nova cepa. Mentira. É culpa da resposta de Bolsonaro. O ritmo de vacinação diminuiu em maio na comparação com abril, período do ministro na pasta. O grande feito de Queiroga foi desconvidar Luana Araújo por ordem de Bolsonaro.

Renan Calheiros adotou abordagem mais dura com Queiroga do que no primeiro depoimento. Mas o ministro repetiu o discurso mentiroso do presidente e dos senadores negacionistas. Ele abusou das meias-verdades, confirmando que não está à altura do cargo que ocupa e que sua preocupação é apenas se manter no cargo.

O cúmulo da sabujice foi dizer que não era "censor do presidente da República" ao comentar o fato de Bolsonaro continuar a sabotar medidas de proteção no período em que Queiroga está no ministério. "O presidente da República não é julgado pelo ministro da Saúde", disse, negando-se a avaliar o comportamento público de Bolsonaro na pandemia.

Queiroga adotou tom mais duro no segundo depoimento do que no primeiro. Vamos ver ao longo do dia como ele se sairá diante de outros senadores que conseguem arguir de modo mais eficiente do que Renan, que foi bem ao tirar o ministro da zona de conforto.