Esportes

Opinião: Lei em Campo - EUA ameaçam boicotar Olimpíada na China em defesa de Diretos Humanos. Será?

Andrei Kampff

Ainda é só uma ameaça, mas vale acompanhar os próximos capítulos. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, disse na semana que passou que o país considera boicotar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, na China, como retaliação pelas denúncias de violações de Direitos Humanos da minoria muçulmana uigur no país e pelo sumiço da tenista Peng Shuai, desaparecida desde que denunciou um dirigente chinês de abuso sexual.

Não acredito muito na sinceridade dos motivos da ameaça. Violações a Direitos Humanos têm sido muito mais pretexto para ações do que motivo real para retaliações. Mas não deixa de ser verdade que um boicote a um evento olímpico é sempre um exemplo histórico de como esporte e política andam juntos, sempre.

Por diferentes razões, a história mostra momentos em que o esporte foi instrumento de pressão política em períodos de tensão em conflitos internacionais.

Boicotes a Jogos Olímpicos

Em 1956, nos Jogos de Melbourne, a Guerra Fria atacou diretamente uma Olimpíada pela primeira vez. Espanha, Países Baixos e Suiça não mandaram delegação por conta da invasão soviética na Hungria.

Já Egito, Iraque e Líbano, envolvidos na guerra com Israel pelo Canal de Suez não foram aos Jogos por conta da participação anglo-francesa no conflito. Além disso, a briga entre China e Taiwan fez com que a primeira se recusasse a comparecer devido à presença da segunda, num conflito que demoraria 28 anos para ser resolvido.

Por conta do Apartheid, regime de segregação na África do Sul que durou décadas, o país sofreu forte retaliação da comunidade esportiva internacional. Por 32 anos, foi proibido de participar de Olimpíadas e Copa do Mundo, só voltando a participar da comunidade internacional do esporte com a eleição de Nelson Mandela e o fim do regime que separava negros e brancos.

Inclusive em Montreal-1976, o Apartheid determinou um boicote aos Jogos. Um grupo de 32 países, a maioria africanos, decidiu não participar como protesto ao fato da seleção de rugby da Nova Zelândia, os famosos All Blacks, ter feito uma excursão em território sul-africano.

Já os Jogos Olímpicos de Moscou em 1980 foram os que sofreram com o maior entre todos os boicotes da história. Os Estados Unidos lideraram 62 países, todos capitalistas, que se recusaram a participar da Olimpíada em protesto à invasão do Afeganistão pela União Soviética, ocorrida em 1979. O presidente norte-americano na época, Jimmy Carter, chegou a ameaçar cassar o passaporte de algum atleta do país que ousasse desafiar o boicote.

Quatro anos depois, em Los Angeles-1984, foi a vez da União Soviética e o bloco socialista boicotarem os jogos nos Estados Unidos. Ao todo, 14 países ficaram de fora dos Jogos, alegando falta de segurança para suas delegações.

Por fim, em Seul-1988, a Coreia do Norte quis sediar algumas provas da Olimpíada que aconteceria em seu homônimo capitalista. Mas a ideia dos socialistas foram recusadas pelos sul-coreanos e também pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Por isso, os norte-coreanos decidiram boicotar os Jogos em protesto e foram acompanhados por Cuba, Nicarágua, Etiópia, Madagascar e Ilhas Seychelles.

Por diferentes motivos, o esporte como instrumento político. Mas, talvez com a exceção do banimento da África do Sul, a proteção de Direitos Humanos nunca foi o real motivo de um boicote ao evento.

Isso que Direitos Humanos teria que ser uma bandeira inegociável do movimento esportivo.

Direitos Humanos do Esporte

ONU, FIFA e COI levantam a bandeira da proteção de Direitos Humanos como algo fundamental para o esporte. Fundamental, portanto inegociável.

A FIFA colocou no seu Estatuto, no artigo 3, a previsão de que a "Fifa está comprometida com o respeito aos direitos humanos internacionalmente reconhecidos e deverá empreender esforços para promover a proteção dos seus direitos". Em maio de 2017, inclusive, estabeleceu uma "política de Direitos Humanos".

Já o COI carrega desde a sua fundação o discurso de Pierre Courbetein de combate ao preconceito e de integração social. Um dos princípios mais caros do Olimpismo é o de que "toda e qualquer forma de discriminação relativamente a um país ou a uma pessoa com base na raça, religião, política, sexo ou outra é incompatível com o Movimento Olímpico." Em seus princípios 2 e 4 estão garantidos a proteção da dignidade humana e o combate a qualquer tipo de preconceito.

Já a Organização das Nações Unidas (ONU) trata o dia 6 de abril como o Dia Internacional do Esporte para Desenvolvimento e pela Paz. A ONU criou a data devido a relevância política do esporte e escolheu a data para relembrar a realização dos primeiros Jogos Olímpicos Modernos.

O esporte como instrumento de paz e desenvolvimento já tem o reconhecimento da ONU há algum tempo. Em 2003 foi publicada a Resolução 58/5, intitulada "Esporte como um meio para promover educação, saúde, desenvolvimento e paz".

Em 2005, a Resolução A/60/L.1, seguia essa mesma linha e reconhecia o esporte como promotor de paz e desenvolvimento. Os chefes de Estado, através da ONU, reafirmam seu compromisso na construção e manutenção da paz e do respeito aos Direitos Humanos.

Ou seja, o principal órgão mundial de política internacional reconhece a importância do esporte como meio eficaz na busca não somente da consecução dos "Objetivos do Milênio", mas reforçam o esporte como instrumento da valorização da cultura de paz e a observância dos Direitos Humanos.

Mas apesar desses compromissos, onde serão os Jogos Olímpicos de Inverno? E a próxima Copa do Mundo? Afinal, existe mesmo uma política de proteção de Direitos Humanos no esporte? Os Estados Unidos estão mesmo preocupados com as violações de Direitos Humanos na China?

As respostas não devem ser animadoras, eu sei.

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