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Opinião: Fábio Seixas - Estranho seria Sainz querer ser escudeiro

Antes de embarcar para Sochi, Carlos Sainz participou de um evento de uma cervejaria em Madri. Falou que não aproveitou o pódio de Mônaco porque estava chateado com problemas da véspera, reclamou da falta de testes, revelou que a Ferrari já está mais focada em 2022 do que nos próximos GPs.

E deu uma declaração já no fim da entrevista sobre o que imagina para seu futuro na escuderia italiana. "Ser feliz como um Barrichello? Não. Sou feliz ganhando. Eu me esforço em Maranello para ser campeão com a Ferrari um dia. Vai acontecer? Não sei."

Pronto. Foi parar nos trending topics. Em tempos de tantos exageros e de julgamentos sumários pela internet, virou inimigo público número 1 do Brasil.

"Tem que comer muito arroz e feijão para chegar perto do nível do Barrichello", escreveu um. "Vamos respeitar a história. Você não ganhou nada ainda e acha que nem vai", lançou outro. Entre os mais exaltados, a mensagem mais leve que li foi "acorda, seu panaca!"

Vamos com calma. Para interpretar o que disse Sainz, antes de tudo é preciso tirar a camisa verde e amarela, é fundamental deixar nacionalismos de lado.

A declaração é reveladora da imagem que Barrichello tem lá fora.

Vá a um paddock de uma etapa qualquer da F-1 e pergunte sobre o brasileiro. Você ouvirá variações sobre dois sentimentos.

O primeiro, de extrema simpatia.

Barrichello é queridíssimo pela categoria. Foram, afinal, 322 GPs em 19 temporadas, passando por seis equipes. Começou com 21 anos, com cara e jeito de moleque, saiu aos 39, calvo e pai de dois filhos. Construiu uma trajetória rara, uma vida no principal campeonato do automobilismo.

Sua primeira vitória, em Hockenheim, há 21 anos, foi das mais comemoradas pela "comunidade da F-1". Integrantes de várias equipes adversárias foram para baixo do pódio aplaudir e vibrar por Barrichello. Foi um dia de alegria contagiante. Ficou registrado na história. Ponto.

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Schumacher e Barrichello no pódio do GP da Áustria de 2002
Imagem: Reprodução

E há o segundo sentimento, que Sainz transpareceu na entrevista em Madri.

Barrichello, nos seis anos de Ferrari, personificou a imagem do "escudeiro", do ajudante de ordens, de alguém enquadrado e conformado em trabalhar para ajudar o companheiro.

Há inclusive uma sutileza semântica na declaração do espanhol que referenda o parágrafo acima. Sainz não diz que não quer ser Barrichello. Afirma não quer ser "um Barrichello". É isso: para boa parte da F-1, o brasileiro tornou-se sinônimo de conformismo, de piloto coadjuvante.

Já havia acontecido antes com outros pilotos? Sim. Mas nunca havia sido tão flagrante, e o estrago causado pelo GP da Áustria de 2002 ainda assola o imaginário de jovens pilotos, como Sainz acaba de deixar claro. "Pobre Rubens", era o tipo de comentário comum nas salas de imprensa mundo afora.

Em suma, todos simpatizavam com Barrichello, mas estava claro para a F-1 qual era seu papel na Ferrari.

É natural que Sainz ou qualquer outro piloto com ambição não queira ir pelo mesmo caminho.

Estranho seria o contrário.