Esportes

Olhar Olímpico - Procurador que denunciou Carol é antifascista e crítico a Bolsonaro

O subprocurador geral do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) do Vôlei, Wagner Vieira Dantas, que assina a denúncia contra Carol Solberg pela fala "Fora, Bolsonaro", é também um crítico ao presidente (sem partido). Nas redes sociais, o advogado compartilha mensagens contra o governo e a favor da democracia. Ele também assinou documento defendendo a "desobediência civil" contra o fascismo.

"Infelizmente são ossos do ofício. Quis o destino que eu fosse o algoz nesta denúncia no STJD. O certo é o certo. Vida que segue, postou no Facebook, em mensagem restrita a amigos. Ontem (28), escreveu mensagem irônica compartilhando música da banda Detonautas e pedindo que as pessoas não a compartilhassem para não desagradar a primeira-dama Michelle Bolsonaro, que tenta censurar a gravação.

Em junho, Dantas foi além e assinou o "manifesto dos advogados antifascistas pela democracia". O documento começa citando que o Brasil vem enfrentando desde o início da década os mais variados ataques ao estado de direito" e termina afirmando que a "desobediência civil é resultado quando os prepostos das instituições democráticas não as obedecem e para que o Estado Brasileiro volte a assemelhar a uma República".

No mesmo dia, o advogado compartilhou ter recebido um convite assinado pelo presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, para participar de um "ato em defesa da democracia e do judiciário". Agora, os dois vão se encontrar no STJD. Dantas pela procuradoria e Santa Cruz, como revelou o blog do Juca, defendendo Carol.

O subprocurador atendeu o Olhar Olímpico e explicou a decisão de denunciar a jogadora. "A Carol tem todo direito de se manifestar. É muito saudável para a democracia a manifestação. A questão é que ela utilizou o local e o canal inapropriados para se manifestar. Ao assentir participar desse campeonato, ela assinou um regulamento que é claro, explícito, que fala que o atleta se compromete a não divulgar sua opinião pessoal — que foi o que ela fez —, crítica, — o que ela fez —, ou falas que possam denegrir a CBV os patrocinadores. Isso já é subjetivo. Pode ser que ela tenha feito, pode ser que não", ele opina.

"Quando foi distribuído o processo, a primeira coisa que fiz foi ler o regulamento. O regulamento fala exatamente isso. Ela leu, assinou. O regulamento gera uma obrigação jurídica não só entre ela e a CBV, mas entre ela e os patrocinadores, ela e o público", continua Dantas.

O subprocurador demonstra preocupação que o Banco do Brasil, banco público que é o principal patrocinador do vôlei há quase 30 anos, decida no ano que vem não renovar o patrocínio. E culpa Carol. "Se o patrocinador cismar de não renovar, a coletividade de atletas vai ser prejudicada pela declaração de uma atleta. Aceitar o "Fora, Bolsonaro" dela daria o direito de as pessoas começarem a gritar fora um ou outro e, quando houver presença de público, isso pode dar confusão. Por isso trago essa discussão ao STJD", ele conclui.

Carol foi denunciada com base em dois artigos do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD): o 191 — deixar de cumprir o regulamento da competição — e o 258 — assumir qualquer conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva não tipificada pelas demais regras do código. Pelo primeiro, a punição varia de R$ 100 a R$ 100 mil. Pelo segundo, suspensão de uma a seis partidas.

No termo de participação do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia 2020/2021, anexo ao regulamento do torneio, os jogadores se comprometem "a não divulgar, através dos meios de comunicações, sua opinião pessoal ou informação que reflita críticas ou possa, direta ou indiretamente, prejudicar ou denegrir a imagem da CBV e/ou os patrocinadores e parceiros comerciais das competições". O "comprovado descumprimento" dessa regra prevê que o atleta pode ter sua participação vetada pela CBV na próxima etapa do circuito.

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