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Notícia: Rafael Reis - A história do uruguaio que morreu em campo porque não queria virar reserva

Abdón Porte foi jogador do Nacional (URU) no começo do século passado. Apesar de ter vencido quatro títulos uruguaios, está longe de ser um dos jogadores mais vitoriosos ou técnicos que vestiram a camisa do clube de Montevidéu.

Mesmo assim, mais de 100 anos depois de sua morte, continua sendo venerado por torcedores, que costumam estender faixas em sua homenagem durante as partidas da equipe tricolor e, não raramente, vão às lágrimas quando falam do ídolo.

Nada mais natural. O ex-zagueiro e volante foi o protagonista de uma das histórias mais tristes que o futebol sul-americano já presenciou.

No dia 5 de março de 1918, há 103 anos, ele se suicidou em pleno gramado do estádio Parque Central, casa do Nacional, porque não aguentou as dores de virar reserva da equipe que tanto amava e da perspectiva de ter de buscar um outro time para dar sequência à carreira esportiva.

Porte, ou "El Indio, como era conhecido, deixou duas cartas em que explicava a decisão de abdicar da vida. Uma foi endereçada a seus familiares. E a outra um agradecimento ao então presidente do clube, José María Delgado, acompanhado de um poema em que explicitava sua paixão pela camisa que vestiu pouco mais de 200 vezes.

"Nacional, ainda que em pó convertido
e em pó sempre amante.
Não esquecerei um instante
o quanto te amei.
Adeus para sempre."

Na carta, o jogador, que tinha apenas 25 anos na época, também pedia para ser enterrado ao lado dos irmãos Bolívar e Carlos Céspedes, duas lendas da primeira década do século 20 do Nacional, que morreram durante uma epidemia de varíola que tomou conta da capital uruguaia em 1905.

O pedido foi prontamente atendido, o que transformou os túmulos do Cemiterio de la Teja em um local de culto para torcedores do Nacional.

Porte atuou em dois clubes (Colón e Libertad) antes de chegar ao time pelo qual era apaixonado. Em 1911, ainda como zagueiro, vestiu pela primeira vez o uniforme tricolor. Guerreiro dentro de campo e excepcional no jogo aéreo, não tardou a conquistar a torcida e também o posto de capitão.

Com "El Indio" em campo, o Nacional encerrou em 1912 um jejum de nove anos sem vencer o título uruguaio e conquistou ainda o primeiro tricampeonato de sua história (1915, 1916 e 1917).

Mas os problemas físicos começaram a minar o desempenho de Porte. Como não gostava de ficar fora de nenhuma partida para descansar os músculos e o lesionado joelho, ele começou a jogar com dores e viu seu desempenho em campo despencar.

A diretoria, então, foi atrás de outras opções para o posto de volante. O capitão, que também enfrentava problemas financeiros depois de deixar o emprego em uma farmácia para se dedicar exclusivamente ao futebol (que ainda não era profissional), caiu em depressão com a possibilidade de ir para a reserva.

Vale lembrar que, na época em que o uruguaio jogava, o futebol ainda não permitia substituições. Ou seja, quem ia para o banco ficava em ostracismo e raramente tinha a oportunidade de jogar.

Depois de uma vitória contra o Charley, no começo de 2018, Porte ouviu que realmente perderia a posição para o recém-contratado Alfredo Zibechi e resolveu transformar em realidade aquilo que, de acordo com as lendas em torno do caso, havia dito a seu irmão semanas antes: "Minha vida sem o futebol e o Nacional não fazem sentido. O dia em que não jogar mais, me dou um tiro."

As homenagens ao capitão começaram a ser prestadas imediatamente e continuam sendo produzidas até hoje.

Abdón Porte virou nome de um dos setores da arquibancada do Parque Central, estádio que recebeu o primeiro jogo da história das Copas do Mundo e que ainda é a casa do Nacional, teve sua história contada em um documentário e apareceu em um dos principais livros do escritor uruguaio Eduardo Galeano, "Futebol ao sul e à sombra", lançado em 1995.

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