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Milly Lacombe | Renato parece achar que pode flutuar acima

O futebol não é uma parte suspensa da sociedade. Ele é, ao contrário, um teatro dos nossos sonhos coletivos. É campo para que a gente também elabore o que somos, como vivemos, como nos relacionamos, como atuamos juntos. Reflete culturas e conta histórias. Tudo o que envolve o futebol é política - e político. A CBF, a FIFA, os dirigentes, os clubes, as relações de trabalho, de produção, de jogo e de vida.

Depois de um 2020 cheio de sofrimento e de traumas, estamos entrando naquela que talvez seja a mais escura das noites da nossa história recente. Uma história já feita de noites muito sombrias e de enormes tragédias, como a escravidão. A pandemia, orquestrada por e Paulo Guedes para sair do controle, finalmente saiu. Chegamos à casa das duas mil mortes por dia, somos oficialmente o pior país do mundo na gestão dessa calamidade e estamos longe de ter um plano nacional de vacinação.

A declaração comovida de Lisca, técnico do América Mineiro, implorando para que jogos que envolvam grandes deslocamentos sejam interrompidos, viralizou. Renato Portaluppi, técnico do Grêmio, foi rápido para comentar e disse que o futebol é o lugar mais seguro e que seguir com os jogos é um favor para o povo que fica em casa vendo pela TV.

De que povo ele está falando? Do povo que está nos corredores lotados dos hospitais públicos e privados, sufocando e esperando atendimento? Do povo que trabalha em funerárias e não está dando conta de enterrar mortos? Dos enfermeiros exaustos e amedrontados? Dos entregadores de comida que, com suas caixas enormes nas costas, precisam seguir trabalhando, extenuando seus corpos, expondo-se ao risco, para não morrer de fome? De que povo Portaluppi está falando? E a que segurança ele se refere?

O time do Corinthians, um dos mais ricos do Brasil, caiu com um surto do vírus no começo de março com 19 infectados. Se um time como o Corinthians não consegue evitar um surto em seu elenco, como estarão os times mais pobres? A que segurança será que Renato se refere? À segurança das pessoas que se aglomeram em bares sem máscaras para ver os jogos pela TV?

Renato Portaluppi é um dos melhores treinadores do Brasil, foi um jogador extraordinário e transgressor, mas, como cidadão, faz parte de uma parcela da população que parece achar que pode flutuar acima dos demais. Não esconde seu machismo fazendo comparações bizarras que colocam a mulher sempre em um lugar de fraqueza e de vulnerabilidade e chegou a dizer, quando o Grêmio levou cinco gols em um jogo, que naquele dia até uma gravida faria gol no Grêmio.

Renato justifica o próprio fracasso transferindo a luz para o corpo grávido de uma mulher e tem gente que ri. A declaração não é recente, mas vale o comentário: existe no mundo alguma coisa mais potente do que um corpo capaz de gerar vida? Abrigar outro ser humano em seu ventre por nove meses e, ainda assim, andar pela vida, fazer esporte, ir ao supermercado, trabalhar fora?

Fico pensando em Portaluppi grávido e imaginando quem ele culparia pelo cansaço, pelo calor, por não poder amarrar o sapato. É saída fácil diminuir a mulher e o corpo feminino para esconder os próprios fracassos. Mas Renato não é tão craque quando o assunto é matar no peito e dizer: eu errei. Pra fazer isso precisamos ter, acima de tudo, coragem.

Coragem é assumir publicamente os erros. É se deixar atravessar por emoções, afetos, sentimentos. É ser capaz de sentir a dor do outro: de tantos brasileiros e brasileiras que estão em situação de risco, de tanta gente que está de luto, de tantas mortes que poderiam ter sido evitadas. Coragem é olhar para uma câmera de TV e dizer: o futebol precisa parar.

Economia não é uma ciência de números e estatísticas de propriedade de alguns homens brancos, bem vestidos com seus ternos caros que se acham os únicos capazes de falar a respeito com seriedade. Economia é teoria de argumentos, envolve vidas, relações, produção (de mercadorias e afetos), distribuição (de mercadorias e afeto) e saúde. Não é um livro de regras fixas e matemáticas e não é lei da natureza. Por todos nós foi criada e por todos nós pode ser alterada.

Não existe "ou a economia ou a vida" como alguns querem fazer parecer. Se organizar direitinho, todo mundo come, todo mundo mora, todo mundo respira, todo tem acesso à saúde e a uma vida decente. É claro que um dia morreremos, mas o direito a uma morte digna - e em seu tempo devido - é básico em sociedades que se pretendem desenvolvidas.