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Lei em Campo - Entenda por que o futebol brasileiro não desperta interesse do City Group

Por Gabriel Coccetrone

Visando um projeto ambicioso até 2025, ano de seu centenário, o Bolívar anunciou nesta terça-feira (11) uma parceria com o City Football Group (CFG), empresa dona do Manchester City e de outros nove clubes espalhados pelo mundo. O clube continuará sendo associativo, fazendo parte do grupo como parceiro, compartilhando dados e investimentos. A operação é inédita e chama a atenção pela falta de interesse do grupo em equipes brasileiras.

"Enquanto clubes não forem empresas no Brasil, praticamente não há investimento possível. Só como ilustração, nesse ano de 2020 um total de 20 clubes nas duas principais divisões de França, Inglaterra, Portugal, Bélgica, Dinamarca, Holanda e Suíça trocaram de dono, mais da metade para investidores americanos com negócios na Europa", informa Pedro Trengrouse, advogado e professor da FGV.

Que os clubes estão muito atrás dos europeus, não é novidade. "Agora estão ficando ultrapassados também na América do Sul. Colômbia, Chile, Uruguai, Venezuela, Peru e Bolívia já têm mais clubes-empresas que o Brasil e por isso estão recebendo investimento internacional", completa Pedro Trengrouse.

Para o advogado Leonardo Motta, autor do livro "O mito do clube-empresa", um conjunto de fatores são determinantes para não atrair um investimento do exterior.

"A falta de interesse político (abraçar o projeto 'Brasil') e a complexidade em que o mercado brasileiro está inserido, que é muito maior que qualquer outro país da América Latina, são alguns dos empecilhos que desestimulam o investimento. A desorganização do futebol brasileiro também contribui para isso", disse o advogado.

O formato de parceria com o Bolívar é inédito no City Football Group, que normalmente compra os clubes. Assim como fez com o Girona (Espanha), Troyes (França), Lommel SK (Bélgica), New York City (Estados Unidos), Montevideo City Torque (Uruguai), Melbourne City (Austrália), Sichuan Jiuniu (China), Yokohama Marinos (Japão) e Mumbai City (Índia).

Com o novo acordo, o CFG agora espera conseguir outros negócios desse tipo e aumentar sua base de dados, conhecimento, consultoria e influência.

"Na Inglaterra, metade dos clubes das quatro primeiras divisões pertence a investidores estrangeiros. Em Portugal, 11 clubes das duas primeiras divisões também. Investidores asiáticos e americanos controlam 39 clubes nas duas primeiras divisões da Inglaterra, França, Espanha e Itália. E os árabes já têm mais de 16 clubes espalhados pelo mundo, inclusive um no Uruguai. Até na Alemanha, a maioria dos clubes já terceiriza o futebol profissional para empresas", acrescenta Trengrouse.

"Estamos muito satisfeitos por aumentar nossa presença globalmente com a incorporação do Clube Bolívar, o primeiro clube parceiro do CFG. Este contrato de longo prazo é o primeiro desse tipo que celebramos e permitirá ao Bolívar alavancar e utilizar a vasta experiência na indústria do futebol desenvolvida pelo City Football Group. Além de apoiar as ambições do Bolívar, temos a oportunidade de aprender. Nossa presença na Bolívia certamente nos permitirá fortalecer nossos conhecimentos e nossas relações com o futebol sul-americano", disse Ferran Soriano, CEO do City Football Group, em nota oficial.

Maior campeão nacional com 29 conquistas, o Bolívar busca retomar a hegemonia local e avançar em competições continentais como a Sul-Americana e Libertadores. No anúncio feito pelo clube, os dirigentes prometeram uma das melhores estruturas da América do Sul, com capacidade para até 80 atletas.

Apesar da tradição no futebol boliviano, o Bolívar nunca conquistou as principais competições do continente. Em 2004, foi vice-campeão da Copa Sul-Americana ao perder a final para o Boca Juniors. Já na Libertadores, a colocação máxima foi um quarto lugar.

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