Esportes

Julio Gomes - Há 30 anos, Dener e Lusa fechavam maior campanha da história da Copinha SP

Nunca houve um time "amador" igual. Talvez nunca haverá. Exatos 30 anos atrás, em um dia 26 de janeiro de 1991, a Portuguesa conquistava seu primeiro título de Copa São Paulo de Futebol Júnior.

A Copinha, infelizmente, não foi disputada em 2021 devido à pandemia (o torneio foi criado em 1969 e somente uma vez, em 1987, o país havia ficado sem seu "Brasileiro de base"). Há alguns anos, a final é disputada no dia 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo. Mas esta é uma tradição mais recente. Em 91, a decisão ficou para um sábado, dia 26. A partida, marcada pelas fortes chuvas que caíram em São Paulo, teve um público pequeno no Pacaembu.

Um público de privilegiados, que viram Dener e companhia fazerem 4 a 0 no Grêmio. Com todo respeito aos grandes parceiros Tico e Sinval, aquele era o time de Dener. Um dos jogadores mais cultuados e debatidos do nosso futebol. Afinal, onde chegaria Dener? O que ele teria virado, não tivesse morrido naquele trágico acidente de carro no Rio, em 94? Talvez seja o maior "se" entre os tantos craques que nosso país produziu.

O vídeo abaixo, com imagens da TV Cultura e narração de meu grande amigo e colega de Bandsports, Cacá Fernando, mostra os quatro gols da final.

A Lusa entrou na Copinha como uma das favoritas. Era a campeã paulista de juniores (em 1990) e, um ano antes, já fazia uma campanha perfeita até cair nos pênaltis contra o Flamengo (aquele de Djalminha, Marcelinho, Júnior Baiano, Piá, Nélio, Marquinhos, Paulo Nunes). Podemos ver como houve times com jogadores que realmente vingaram no profissionais mais tarde, mas nenhum time ganhou a Copinha com tanta contundência quanto a Lusa-91.

Foram nove vitórias em nove partidas, 32 gols marcados e 7 sofridos. Nenhum susto na campanha. Sinval foi o artilheiro da competição, com 12 gols. Os 32 gols da Lusa e os 12 de Sinval nunca mais foram repetidos na Copinha.

O time que entrou em campo na final tinha: Paulo Luís; Josias, Souza (Ricardo), Baiano e Roman; Maninho, Cícero e Dener; Tico, Sinval e Pereira. Curiosamente, do outro lado, com a camisa do Grêmio, estavam o goleiro Danrlei e o meia Carlos Miguel, que cinco anos mais tarde se vingariam da Portuguesa sendo campeões brasileiros.

O técnico da Lusa era Écio Pasca, idealizador dos "losangos flutuantes", como o sistema foi apelidado por jornalistas na época. Eram losangos em campo com um certo Dener flutuando no meio deles. Como a Portuguesa ganhava as partidas de forma avassaladora, começando com tudo e fazendo gols logo no início das partidas, a estratégia ficou conhecida como "tempestade no gramado" - em alusão à "tempestade no deserto" do exército norte-americano na Guerra do Golfo, que explodia naquele janeiro de 1991. O vídeo abaixo tem todos os gols da campanha de 91 e os melhores momentos da final.

Dener deveria ter sido o Neymar da Portuguesa, mas acabou subindo para o profissional sem a companhia do resto do time (exceto Tico e Sinval). Jogava em Portuguesas medíocres, um clube comandado por um político (deputado até hoje, por sinal) que tinha outras prioridades. Perdeu a paciência, quis ir embora, foi emprestado ao Grêmio e, depois, ao Vasco.

Para chegar onde está hoje, a Lusa perdeu o bonde da história não uma, mas várias vezes. Um dos principais bondes passou pelo Canindé naquele início dos anos 90.

Tico ainda ficou bastante tempo no clube e, quando a Lusa foi à final do Brasileirão, em 96, era o único remanescente da Copinha. Foi titular ao longo do campeonato todo, mas, na fase final, perdeu o lugar no time para Alex Alves. Sinval seguiu carreira por quase 30 clubes e se destacou ganhando a Copa Conmebol com o Botafogo, em 93. Do resto da turma, pouco se sabe ou se lembra (esta matéria da ESPN, de cinco anos atrás, traça alguns paradeiros).

Os jornalistas Luiz Nascimento e Cristiano Fukuyama lançaram na noite de ontem um documentário chamado "Invictos", resgatando depoimentos de praticamente todos os envolvidos naquela conquista de 91. É um material histórico brilhante - mais um da dupla de cineastas, torcedores lusos, que já fizeram vários outros documentários de alta qualidade registrando passagens históricas da Portuguesa.

Para registro: Houve outro time campeão da Copinha SP vencendo nove jogos de nove, que foi o Corinthians de 2017. Mas com 30 gols marcados e os mesmos 7 sofridos. Carlinhos, artilheiro daquela edição com 11 gols, estava no fim do ano passado terminando o contrato com o Corinthians - jogando emprestado ao Atibaia. Sumiu. Não foi uma campanha para ficar na memória, como aquela de 30 anos atrás.

Outros sete campeões da Copinha o fizeram com 100% de aproveitamento, mas menos jogos realizados: Corinthians-2015 (oito vitórias, melhor jogador daquele torneio foi Gabriel Jesus, do Palmeiras); Santos-2014 (oito vitórias); Corinthians-2012 (oito vitórias, 30 gols feitos e 2 sofridos); São Paulo-2000 (sete vitórias, o time de Júlio Baptista, Simplício e Harison, que tinha Kaká no banco); Corinthians-99 (sete vitórias, o time de Edu, Fernando Baiano, Ewerthon), Inter-80 (seis vitórias), Atlético-MG-76 (três vitórias).