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Goleador no Brasileiro mantém faro na Ucrânia e sonha com chance na seleção

Em agosto de 2021, Matheus Peixoto foi vendido pelo Red Bull Bragantino para o Metalist, da Ucrânia. A negociação não destinou qualquer valor ao Juventude, clube pelo qual ele atuava por empréstimo, e tirou de Caxias do Sul um dos artilheiros do Brasileirão. A fase goleadora do atacante de 26 anos foi junto na bagagem para a Europa, e hoje ele está no topo da lista de artilheiros da segunda divisão da Ucrânia.

Os números de Peixoto são expressivos. Mesmo que já fossem bons pelo Ju, clube pelo qual fez 12 gols e deu uma assistência em 27 jogos, agora a média é de quase um gol por jogo. São 14 feitos — 13 pela Liga e um pela Copa da Ucrânia — em somente 18 compromissos.

"A adaptação foi muito boa. Eu vim antes da minha família, eles chegaram cerca de 20 dias depois. Fui muito bem recebido pela comissão técnica e pelos jogadores. Tem o Mailton que é brasileiro, o Riascos, que é colombiano mas fala português muito bem, tinha o Jô, que é outro brasileiro, o auxiliar técnico é o Anderson Ribeiro, o Michel é nosso preparador físico, o Fabrício é o fisioterapeuta, são todos brasileiros. Chegou o Paulinho Bóia também", contou em entrevista ao UOL Esporte.

"A adaptação foi muito boa e acabamos não sentindo tanto. Sem contar que a cidade é muito boa. É muito tranquila, segura e tem muitas coisas para fazer. Foi um conjunto de situações para as coisas darem certo. Graças a Deus tudo funcionou. Fui muito bem recebido, tive desde o início confiança da comissão técnica e pude refletir isso em campo", completou.

Matheus Peixoto em ação pelo Metalist, da Ucrânia - Divulgação/Metalist - Divulgação/Metalist
Imagem: Divulgação/Metalist

A decisão de deixar o Juventude, porém, não foi nada fácil. Ao lado de Gilberto, do Bahia, e Bruno Henrique, do Flamengo ele era artilheiro do Brasileirão e vivia o sonho de ter sequência na elite. A escolha levou em conta o plano de construir carreira no Velho Continente.

"Foi uma decisão bem difícil. É a primeira vez que saí do Brasil para jogar em outro país. Foi pensado tudo em conjunto entre meus pais, minha esposa, empresários e eu. Graças a Deus estou muito feliz aqui, vivendo um grande momento, espero dar continuidade e crescer cada vez mais no futebol europeu", disse.

"Eu completei 26 anos agora e acho que tenho uma estrada longa para percorrer, muitos anos para jogar futebol. Penso em construir minha carreira aqui. Foi uma das decisões que tomei, de vir para cá e, futuramente, permanecer. Tive propostas no Brasil e optei por vir para cá. É uma oportunidade grande que tive e estou tendo, vão abrir muitas portas aqui para mim. Penso em continuar aqui. É um futebol totalmente diferente, uma cultura diferente, e penso em construir carreira aqui", acrescentou.

O tempo provou que a escolha foi correta. Peixoto até superou a média de gols que ostentava no Ju. No Brasileiro foram sete gols em 12 jogos, gerando média de 0,58 por partida. Na Ucrânia são 13 gols na Liga em 15 partidas, elevando a média para 0,86.

"É um início muito bom. Eu já vinha numa sequência boa no Brasil, era artilheiro do Brasileirão e com uma média boa de gols. Eu queria chegar e dar continuidade ao momento. E eu pude fazer isso, já chegar fazendo os gols. Fui muito bem recebido, e a chave para isso foi essa adaptação rápida e boa. Eu tive este início muito positivo. Tenho que me dedicar no dia a dia e procurar a cada dia mais me entrosar com o pessoal. Tenho certeza que tenho tudo para continuar fazendo gols e boas partidas, para atingirmos nosso objetivo que é voltar para primeira divisão, colocar o Metalist no cenário que estava, voltar a jogar uma Liga Europa e bater de frente com os grandes clubes. Buscar títulos e colocar o Metalist onde sempre esteve", contou.

Números tão bons reforçam um sonho: defender a seleção brasileira. Ainda jovem e vivendo seu ápice, Peixoto aposta na observação que a comissão técnica de Tite faz nos mais diversos campeonatos para ter esperança de um dia ser lembrado.

"O sonho de todo menino é representar seu país. Desde pequeno eu tenho este sonho. Claro que eu tenho uma estrada longa para percorrer. Mas, todo sonho é possível e vou seguir acreditando nisso. Vou continuar na pegada que estou, fazendo gols e me destacando. Eu estou no caminho certo para percorrer essa estrada longa e quem sabe ter uma oportunidade", comentou.

Longe do preconceito e driblando o frio

Matheus Peixoto comemora gol pelo Metalist junto com companheiro de equipe - Divulgação/Metalist - Divulgação/Metalist
Imagem: Divulgação/Metalist

Um dos obstáculos vencidos por ele é o frio da Ucrânia. Prestes a ver o campeonato parar em razão do clima, ele convive com as temperaturas negativas com o máximo de naturalidade que é possível.

"É muito, muito frio mesmo. Ainda não chegou o frio de verdade. Agora está menos oito graus. É uma temperatura que para eles é normal nesta época. Estamos nos adaptando. Vamos fazer o último jogo agora porque terá a parada para as férias por conta do frio. No fim de dezembro e início de janeiro o frio é muito grande. Então, as competições têm uma pausa", comentou.

O estilo de jogo intenso também chamou atenção do atacante, que tem superado defesas fechadas para marcar seus gols.

"É um estilo de muita intensidade. Eles têm um vigor físico muito grande, sempre querem estar perto da bola, uma intensidade muito grande. Com a chegada dos estrangeiros, tentamos fazer diferente, cadenciar o jogo, mostrar mais técnica, mas o que me chamou atenção mesmo é a intensidade que jogam. Eles têm um poder de marcação muito grande. Não tem muito tempo para pensar", disse.

Se o clima insiste em tornar o ambiente menos aprazível, Peixoto contou que não conviveu ou presenciou qualquer tipo de preconceito por lá. Atos que vez por outra tomam as manchetes, como situações de racismo ou tratamento diferente a pessoas vindas de fora do país não ocorreram com ele ou próximo até o momento.

"Nunca percebi preconceito com estrangeiros. Nosso time tem muitos estrangeiros e mantém essa cultura. Os ucranianos me receberam muito bem, jogadores, comissão, já tinha brasileiro no time e se davam muito bem, não vi nenhum tipo de preconceito", relatou.

"A questão racial é complicado falar. Em pleno 2021, chegando em 2022, se vê no mundo todo diariamente casos de pessoas sendo racistas. Não só no meio do futebol, mas na vida. É chato falar nisso porque a classe dos atletas tenta fazer protestos, em todas as áreas tentamos combater isso, e é difícil. Mas temos que seguir firmes porque não pode acontecer de jeito nenhum", finalizou.