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Análise: Rodrigo Mattos - Como é o plano da Super Liga de clubes que revoluciona o futebol mundial

A criação da Super Liga foi anunciado por 12 clubes gigantes europeus na noite de domingo em um movimento que causa uma revolução no futebol mundial. O plano vem sendo gestado entre os dirigentes há mais de um ano e estabelece um modelo similar ao da NBA, com times fixos, sem rebaixamento. Há um conflito claro com a UEFA, as ligas nacionais europeias, a Fifa e até a Conmebol.

Primeiro, para entender o plano, é preciso detalha-lo. A estratégia já estava montada em janeiro quando estava posto o confronto com as entidades do futebol. Os grandes clubes europeus planejavam um campeonato com 20 clubes, 15 deles fixos e fundadores, sem rebaixamento ou ascensão.

Apresentaram-se como fundadores Manchester United, City, Toteham, Arsenal, Chelsea, Liverpool, Barcelona, Real Madrid, Atlético de Madrid, Juventus, Inter de Milão e Milan. Há mais três vagas. Times como Bayern Munich e o PSG ainda não aderiram.

Pelo plano inicial, os outros cinco seriam convidados. Mas, no anúncio feito neste domingo, os clubes afirmaram que seriam times classificados, o que pode ser uma concessão para parecer que a competição não é um um grupo fechado.

Pois bem, a partir daí, eles jogariam em dois grupos de dez times até que oito se classifiquem para os mata-matas. Pelo plano inicial, seriam 18 a 23 jogos por time. A competição ocorreria em maio e junho. Mas o anúncio não deixou claro se esse é o período de fato pretendido: só informou que serão partidas no meio de semana.

O comunicado dos clubes não deixa claro se esses abdicarão da Champions League. A UEFA se opôs de forma dura à nova liga em comunicado conjunto com todas as ligas nacionais: classificou o projeto de "cínico" e contrato nos próprios interesses dos clubes.

A disputa, no final, tem relação direta com dinheiro. A Champions League gera atualmente 3,2 bilhões de euros em receitas que são divididas entre clubes participantes e em pagamentos de solidariedade. A nova Super Liga prometa gerar 4 bilhões de euros e concentrar o dinheiro nas mãos dos clubes fundadores.

O plano dos clubes foi estruturado já com financiamento de grandes bancos americanos - onde estão os donos de alguns dos times ingleses - para garantir um capital de 3,5 bilhões para os clubes fundadores. Esse dinheiro será usado para cobrir custos pela crise de Covid e investimentos em infraestrutura.

Em seu comunicado, os clubes informam que continuarão a disputar as ligas nacionais que são o "coração do jogo do clube". Não há menção à Champions League ou às Copas. Não por acaso a reação da UEFA foi tão dura, ameaçando com retaliações. A entidade ainda agradeceu clubes da França e da Alemanha por não terem aderido ao projeto - Bayern, Borussia e PSG são cortejados pelo grupo de clubes.

Quando houve a ameaça de ruptura por parte dos clubes, a Fifa informou que proibiria os jogadores desses clubes de disputar a Copa do Mundo. A decisão provocaria uma divisão entre os jogadores sobre jogar por suas seleções ou pelos seus superclubes.

A ruptura é similar ao que ocorria no passado com a NBA quando jogadores não podiam atuar na Olimpíada. Não por acaso o novo modelo de Super Liga se baseia nas ligas americanas, de onde vem os donos do Liverpool e do Manchester United. De certa forma, os norte-americanos donos desses clubes já tinham usado esse conceito na fundação da Premier League. Ressalte-se que o líder do projeto é o presidente do Real Madrid Florentino Perez.

O projeto, portanto, ameaça alterar de forma radical a organização do futebol mundial ao acabar com o sistema de mérito esportivo por uma lógica puramente comercial de disputa entre os clubes com marcas constituídas. Haverá certamente resistência no caminho.