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Análise: Renato Mauricio Prado - Flamengo vence o Velez e a própria defesa

Em termos de resultado, a estreia do Flamengo na Libertadores não poderia ser melhor. Venceu, na casa do Velez Sarsfield, que parece ser o principal adversário de seu grupo e quebrou um tabu que já durava quase quatro décadas - a única vez que o rubro-negro derrotara uma equipe argentina, como visitante, na principal competição do continente, fora em 1983, quando o inesquecível esquadrão de Zico bateu o River Plate por 3 a 0.

Tudo muito bom, tudo muito bem? Nem tanto. O Flamengo foi superior ao Velez durante praticamente toda a partida, mas ainda assim flertou com a derrota, ficando duas vezes em desvantagem no placar devido a falhas recorrentes de seu sistema defensivo. Que colocaram novamente na berlinda a opção do técnico Rogério Ceni por usar Diego como volante e William Arão como zagueiro.

Não há dúvidas de que tal formação melhora a saída de bola da defesa para o ataque e reforça o poder de armação do meio-campo (objetivo maior do treinador). O custo-benefício dessa improvisação, porém, pode nem sempre ser positivo como aconteceu no José Amalfitani, na noite de terça-feira passada - vide a contundente derrota para o Vasco, por 3 a 1, no Estadual.

Por mais que se esforce - e o tem feito de forma comovente - Diego não consegue proteger a defesa como um volante de origem. Como o próprio Arão, por exemplo. Esse, por sua vez, tampouco oferece, como zagueiro, a segurança de um beque clássico. Posiciona-se mal, oferece espaços generosos nas próprias costas e muitas vezes é envolvido sem grandes dificuldades pelos atacantes adversários - vide o drible que levou de Raphael Veiga, na final da Supercopa do Brasil. Nos dois gols do Vélez, nem é justo considerá-lo o principal culpado, mas em ambos estava mal colocado. Perdido.

Fato é que o Flamengo de Ceni ainda é uma equipe irregular, que depende muito do talento individual de seus jogadores para vencer. Não tem jogadas ensaiadas no ataque e, por vezes, flerta com o jogo posicional, que conspira diretamente contra uma de suas maiores virtudes, a capacidade de rotação dos homens de frente. Contra o Velez, por exemplo, é óbvio que Bruno Henrique foi orientado a passar a maior parte do jogo grudado na linha lateral da ponta-esquerda. E pouco fez. Por que insistir com isso?

Do outro lado, inexplicavelmente, Éverton Ribeiro é mantido como titular, embora não jogue bem desde que retornou da seleção de Tite. Está evidentemente sem confiança e em dois lances, um deles beirando as raias do inacreditável, deixou de concluir para tentar passes que não faziam o menor sentido. Em ambos, estava na cara do gol.

No final das contas, o Flamengo venceu porque tem vários jogadores excepcionais, de rara qualidade técnica. Como Gabigol, Arrascaeta e Gerson. Dos pés deles nasceram as jogadas que culminaram com os três gols, concretizando uma virada épica. Que justifica todas as comemorações por parte dos torcedores.

Um resultado que dá a Rogério a tranquilidade necessária para continuar um trabalho que, contudo, precisa evoluir. Se a opção por Arão na zaga e Diego como volante é definitiva, torna-se obrigatório ser muito mais bem treinada. E não custa preparar alternativas defensivas, para situações e adversários distintos. Bem como melhorar a marcação nas cobranças de corner dos adversários, sempre um sufoco na área rubro-negra!

Assim como seria de bom tom ensaiar jogadas ofensivas em cobranças de faltas e escanteios. Não é aceitável que um time como o Flamengo limite-se a alçar bolas altas na área apostando na extraordinária impulsão de Bruno Henrique. O time de Jorge Jesus fartava-se de marcar gols de cabeça porque havia treinamento, deslocamentos e ensaios para isso.

O torcedor rubro-negro resiste a Ceni porque sabe que seu time pode jogar muito mais. Cabe ao treinador capacitá-lo para tanto. Se conseguir tal feito, será abraçado com carinho. A torcida sabe do que essa equipe é capaz: vencer e convencer, como em 2019. E é isso que espera.