Economia

Trabalho infantil no mundo aumenta pela primeira vez em vinte anos

Trabalho infantil no mundo aumenta pela primeira vez em vinte anos

Um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Unicef divulgado nesta quinta-feira, 10, mostra que 160 milhões de crianças em todo o mundo encontram-se em situação de trabalho, um aumento de 8,4 milhões nos últimos quatro anos. No domingo, 12, celebra-se o Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil, mas há pouco a se comemorar. É a primeira vez em vinte anos que a tendência de queda foi interrompida, em grande parte devido aos efeitos da pandemia de Covid-19.

De acordo com o estudo Trabalho Infantil: Estimativas Globais 2020, Tendências e o Caminho a Seguir, entre 2000 e 2016, 94 milhões de crianças saíram dessa condição. Com os efeitos econômicos da pandemia, no entanto, a OIT e a Unicef alertam que 9 milhões delas correm o risco de voltarem a trabalhar até o fim de 2022. Um modelo de simulação mostra que esse número poderia aumentar para 46 milhões, caso elas não tenham acesso a uma cobertura de proteção social crítica.

O relatório destaca ainda que 6,5 milhões de crianças de 5 a 11 anos entraram em situação de trabalho infantil desde 2016, atingindo 79 milhões nessa faixa etária. Esse numero representa pouco mais da metade de todos os casos do tipo em escala mundial.

Em regiões do mundo onde houve algum avanço desde 2016, como Ásia e Pacífico, e América Latina e Caribe, a pandemia está colocando em risco esse progresso. Na África Subsaariana, o crescimento populacional, as crises recorrentes, a pobreza extrema e as fracas redes de proteção social resultaram em um adicional de 16,6 milhões de crianças em situação de trabalho infantil nos últimos quatro anos.

“As novas estimativas são um alerta. Não podemos ficar parados enquanto uma nova geração de crianças está em risco”, disse em comunicado Guy Ryder, diretor-geral da OIT. “A proteção social inclusiva permite às famílias manter seus filhos na escola, mesmo diante das dificuldades econômicas. É essencial aumentar os investimentos para facilitar o desenvolvimento rural e promover o trabalho decente no setor agrícola. Estamos em um momento crucial e os resultados que obtivermos dependerão em grande medida das repostas que adotarmos.”

Crianças que já se encontram em situação de trabalho infantil podem estar trabalhando mais horas ou em condições de piores, enquanto muitas mais podem ser levadas às piores formas de trabalho infantil devido à perda de emprego e renda das famílias vulneráveis.

“Neste segundo ano de confinamentos em todo o mundo, fechamento de escolas, crises econômicas e ajustes orçamentários em escala nacional, as famílias são forçadas a tomar decisões muito drásticas”, disse em comunicado Henrietta Fore, diretora executiva do Unicef. “Incentivamos governos e bancos internacionais de desenvolvimento a priorizarem investimentos em programas que possibilitem tirar as crianças da força de trabalho e colocá-las de volta na escola, bem como em programas de proteção social que ajudem as famílias a evitar essa escolha em primeiro lugar.”

Segundo relatório do Observatório da Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, uma iniciativa do Ministério Público do Trabalho (MPT) em parceria com a OIT, entre 1992 e 2015, 5,7 milhões crianças e adolescentes deixaram de trabalhar no Brasil uma redução de 68%. De acordo com dados de 2017, no entanto, ainda há 2,7 milhões de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil no país – 59% meninos e 41% meninas. Mais da metade dessa população está nas regiões Nordeste (852 mil) e Sudeste (854 mil). A região Norte é a única na qual a maior incidência de trabalho infantil está em atividades agrícolas. A faixa etária de 14 a 17 anos concentra 83,7% dos casos, mas o trabalho infantil entre crianças de 5 a 9 anos aumentou 12,3% entre 2014 e 2015, de 70 mil para 79 mil.