Economia

Petrobras: Castello Branco diz que repasses continuam até sua saída

Petrobras: Castello Branco diz que repasses continuam até sua saída

Roberto Castello Branco, 76 anos, foi demitido por Bolsonaro do posto de presidente da Petrobras. Mas foi para a conferência de resultados com analistas como um garoto, usando uma camiseta onde se lia “Mind the gap”, cuidado com o vão, na tradução livre. O slogan é o nome do plano estratégico da Petrobras, mas também foi uma clara provocação a Bolsonaro. Castello Branco não mencionou o nome do presidente, mas nem precisou.  Os analistas ajudaram com palavras super elogiosas ao trabalho feito por Castello Branco e sua diretoria. Do alto de seus cabelos bancos, o ainda presidente da Petrobras  deu seus recados e o principal deles foi o de que  vai continuar seguindo a política de paridade nos preços de importação do petróleo até o fim do seu mandato, no dia 20 de março. Ou seja, se o petróleo continuar subindo no mercado internacional, os preços dos combustíveis vão continuar subindo também aqui no Brasil. Até agora, neste ano, já subiram quase 30% em 4 diferentes reajustes na gasolina e três do etanol.

O presidente Jair Bolsonaro, no processo de fritura de Castello Branco, chegou a botar dúvidas sobre a integridade e a transparência da Petrobras na questão do repasse de preços dos combustíveis, depois do último reajuste de cerca de 15%, que fez subir da pressão dos caminheiros, uma das principais bases de Bolsonaro, para cima do governo. Bolsonaro chegou a questionar a atuação de Castello Branco devido ao home office adotado pelo presidente da companhia. “Ninguém fica sentado em casa aumentando preço. é fruto de trabalho de equipe”, afirmou durante a conferência, em resposta indireta ao presidente. 

As falas de Bolsonaro levaram o Conselho de Administração da Petrobras a decidir fazer um questionamento oficial ao presidente sobre o que exatamente ele quis dizer ao botar dúvidas sobre a transparência da política de preços da petroleira. Castello Branco disse hoje que a empresa foi acusada injustamente de falta de transparência por não revelar um item de sua política comercial. “Nenhuma empresa privada revela sua política comercial publicamente porque os principais interessados são os concorrentes”, disse ele. “Nenhuma empresa divulga formula de ajuste de preços”. 

Perguntado sobre como a empresa determina os preços, Castello Branco disse que uma grande equipe se reúne e analisa dados não só de preços, mas da concorrência. A definição de preço é validada por dois diretores da empresa e se há alguma divergência, o presidente da Petrobras em última instância determina o reajuste. Esta é uma grande preocupação do mercado em torno do nome indicado por Bolsonaro, o general Joaquim Silva e Luna, que hoje comanda Itaipu. Como os preços são definidos pela diretoria, há um temor que Luna possa não seguir as regras de paridade.

O ainda presidente da Petrobras garantiu que nem ele, nem ninguém da diretoria, vai deixar o cargo antes do fim do mandato e que vai fazer a transição o mais suave possível para o bem da empresa. A empresa deve marcar uma assembleia para a escolha de novos membros do Conselho de Administração, como pediu Bolsonaro, e só a partir daí poderá ser feita a escolha do novo presidente. O indicado de Bolsonaro precisa ainda ser eleito membro do conselho por assembleia de acionistas e depois o conselho precisa aprovar seu nome como presidente executivo da estatal. O conselho pode recusar uma indicação se entender, de acordo com a lei das estatais, que o indicado pelo governo não atende algum dos pré-requisitos técnicos para o cargo.

O embate de Bolsonaro com a Petrobras e a forma como anunciou a saída Castello Branco e o nome de Luna para o cargo, levou as ações da empresa a despencarem na segunda-feira mais de 21%. Apesar de ter subido nos dias seguintes, as ações não recuperaram seus preços, com o temor dos investidores de como a nova administração deve tratar a questão da paridade dos preços.

A Petrobras informou que, no ano passado, essa mesma política de paridade com preços internacionais resultou numa queda durante o ano de 4% no preço da gasolina nas refinais e d 13% do óleo diesel. Isso aconteceu porque a empresa segue a paridade de preços para cima ou para baixo. Como o preço do petróleo despencou no primeiro semestre do ano passado, o reflexo foi uma queda nos preços também dos combustíveis.  A petroleira terminou um ano com um lucro líquido de 7 bilhões de reais, uma queda de mais de 80% em relação ao ano anterior, em boa parte por conta justamente da queda dos preços do petróleo no mercado internacional. Desde o segundo semestre os preços do petróleo vem subindo e a trajetória continua agora em 2021. Mesmo com esse resultado, a empresa vai distribuir mais de 10 bilhões de reais em dividendos e boa parte vai para ao caixa do governo, que é o principal acionista da companhia. 

Em outra resposta indireta a críticas de Bolsonaro, Castello Branco também fez questão de frisar que a Petrobras faz um amplo trabalho social com educação infantil preparando as crianças para o futuro digital e também com trabalhos no meio ambiente. Bolsonaro está preocupado com os caminhoneiros, que ameaçam greves em todo o país por conta dos preços dos combustíveis. O presidente da Petrobras também exaltou o ganho de produtividade com home office desde o início da pandemia. Bolsonaro disse que descobriu há poucas semanas que Castello Branco estava há 11 meses em casa, sem trabalhar. Ontem, na posse de novos ministros, disse que substitui Castello Branco, que tem 76 anos, porque ele já está velho.