Economia

Pandemia e digitalização estimulam consolidação na moda brasileira

Pandemia e digitalização estimulam consolidação na moda brasileira

As últimas semanas foram movimentadas nos bastidores das grandes empresas do mercado de vestuário no Brasil. A tradicional Cia. Hering, de Blumenau (SC), recebeu proposta de compra da Arezzo&Co e do Grupo Soma. Depois de uma série de reviravoltas, envolvendo a recusa de uma 3,3 bilhões de reais por parte da Arezzo, foi o Grupo Soma, dono de marcas como Farm e Animale, quem venceu a disputa e arrematou a empresa catarinense por 5,1 bilhões de reais. Com a fusão, cria-se a quarta maior grife de moda do país, um conglomerado com receita acumulada de 2,3 bilhões de reais, segundo dados referentes a 2020, ano em que as varejistas de moda sofreram com os efeitos da pandemia de Covid-19.

“Enquanto o Grupo Soma tem uma forte atuação no segmento premium, com vocação para o público feminino, a Hering tem uma força grande no mercado masculino e traz uma base de clientes enorme para a Soma, já que é uma marca mais democrática e tem um perfil de público mais abrangente”, diz Alberto Serrentino, fundador da consultoria Varese Retail.

A negociação frustrou a Arezzo, que tem investido pesado para diversificar sua fonte de receita. Em outubro de 2020, o grupo que calça as mulheres com as marcas Arezzo, Schutz, Anacapri e Alexandre Birman adquiriu a grife masculina Reserva, por 715 milhões de reais, criando assim um negócio com enormes sinergias. Vale lembrar que antes disso, em 2019, o Magazine Luiza também decidiu surfar no mercado de vestuário e comprou o portal de artigos esportivos Netshoes, por 115 milhões de dólares.

Há quem diga, no entanto, que esse movimento de consolidação no varejo têxtil brasileiro tenha novos capítulos em breve, já que a maior empresa desse setor, a Renner, anunciou uma oferta subsequente de ações cujo valor pode superar a marca de 6 bilhões de reais. A empresa pretende usar os recursos para aprimorar a digitalização de seus processos, construir um centro de distribuição e expandir suas lojas físicas, mas não só isso: os valores também podem ser aportados em investimentos. Embora nenhuma das partes confirme, o mercado especula que o montante poderia ser usado para a aquisição da Dafiti, líder em venda de moda por canais digitais no país.

Pode-se dizer que essa novo holofote na moda tem como um dos principais objetivos a transformação digital. Como a Covid-19 acelerou a transformação de hábitos de consumo, como estimular a compra pela internet, as grandes grifes investiram no canal on-line para seduzir os consumidores.

Nesse jogo, ganha aquele site que promove maior variedade de produtos e marcas. Com esse cuidado, a Arezzo lançou, no fim de 2019, seu marketplace, o ZZ Mall. Mas não só ela. Aproveitando-se do movimento de saída de grifes internacionais do país, até os shopping centers, como os grupos Iguatemi e JHSF, resolveram lançar seus marketplaces, apostando em varejistas renomadas do ramo da moda. “O efeito Covid impulsionou a transformação digital dos negócios e trouxe uma aceleração muito grande na dominância dos marketplaces, que são os ecossistemas de vendas virtuais. Muitas empresas, para ganhar musculatura e acelerar essa agenda, acabam indo ao mercado em busca de aquisições que façam sentido e gerem recorrência na venda de produtos, que é o que todo varejista persegue, no fim do dia”, complementa Serrentino.