Economia

Depois de quatro meses de avanços, vendas no varejo estagnam em setembro

Depois de quatro meses de avanços, vendas no varejo estagnam em setembro

Depois de quatro meses de crescimento ininterrupto, o varejo começa a dar alguns sinais de desaceleração. Os setores que mais influenciaram o resultado foram os de supermercados e materiais de construção. Segundo números do IGet, pesquisa obtida em primeira mão por VEJA e que é desenvolvida pelo Departamento Econômico do Santander em parceria com a Getnet, as vendas do comércio varejista decaíram 0,8% em setembro em relação ao mês de agosto. Na comparação com setembro do ano anterior, no entanto, os números positivos se sustentam, com crescimento de 25,7%. Apesar de paradoxal, a discrepância entre a passagem mensal e a anual tem explicação: como o mês de setembro não é favorecido com datas comemorativas e como a pandemia migrou o potencial de consumo represado do primeiro para o segundo semestre, é normal esse crescimento frente a igual período de 2019. É improvável, no entanto, na análise de economistas, que esse avanço se mantenha nos meses de novembro e dezembro.

Há três pontos principais, segundo os economistas, para essa inflexão na passagem mensal e eles servem de alerta para o futuro. O primeiro deles é a reabertura gradual da economia. Com o arrefecimento da disseminação do novo coronavírus no país, o setor de serviços, como bares e restaurantes, voltou a ganhar escala e tem mitigado o potencial de geração de caixa do varejo. Já a redução do auxílio emergencial, de 600 para 300 reais, ainda não foi determinante, mas tende a afetar o consumo das famílias, sobretudo a partir de outubro. Por último, mas não menos importante, a inflação em determinados produtos tem feito com que o consumidor adote um tom mais criterioso no momento da compra. “Essa recuperação em V que nós vimos no varejo chegou ao seu limite. Os mercados tendem a se aproximar aos valores praticados antes da pandemia e estacionar, até porque o conjunto de estímulos dados pelo governo está sendo retirado ou diminuído”, diz André Perfeito, economista-chefe da corretora Nécton. “Fora isso, temos uma elevação nos juros de longo prazo no Brasil, que acaba se refletindo em um menor apetite dos bancos para a concessão de crédito.”  

No conceito varejo restrito, que exclui as vendas de materiais de construção e automóveis, somente o segmento de supermercados apresentou queda expressiva. De acordo com o IGet, o recuo foi de 4,2% em setembro em comparação com o mês predecessor. Para os analistas, esse déficit foi em função do aumento no preço dos alimentos. “Com alta nos preços, sobretudo em agosto, o consumidor passou a selecionar mais e comprar apenas itens de primeira necessidade”, afirma Lucas Maynard, economista do Santander Brasil. Para o fim do ano, época de datas comemorativas, como Black Friday e Natal, que catalisam fluxo de consumo, é difícil prever que o varejo mantenha taxas de crescimento robustas. “Os números de setembro sugerem atenção para uma possível desaceleração do consumo em curso. Em outubro, é muito provável que a redução do valor do auxílio emergencial traga novos impactos para o varejo”, analisa Gustavo Sechin, diretor financeiro da Getnet.

Com a maioria das escolas e universidades paradas e boa parte da população adotando o home office, a venda de materiais de escritório apresentou queda de 2,8%. Outro mercado que demonstrou sinais de desaquecimento foi o de materiais de construção, que registrou declínio de 4,3%. Por outro lado, o segmento de vestuário, um dos últimos a se recuperar do blecaute ocasionado em março e abril, apresentou números consistentes no mês de setembro. A alta nas vendas foi de 5,7%, o que colocou o mercado de volta aos níveis de crescimento antecessores à pandemia. A venda de móveis e eletrodomésticos, por sua vez, avançou 5,3% frente a agosto. Dentre os estados, os melhores desempenhos para o mês foram registrados no Paraná (10,7%) e em Minas Gerais (10,5%). Por outro lado, o comércio varejista amargou quedas no Amapá (-3,6%) e em Rondônia (-3,5%), na mesma base de comparação. Para a pesquisa, o Departamento Econômico do Santander compilou informações de mais de 200.000 estabelecimentos, de diferentes tamanhos, segmentos, atuações e regiões.

Números da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, a CNC, confirmam a tendência de desaquecimento do varejo essencial. Na última semana cheia do mês de setembro, o avanço nas vendas do comércio varejista essencial foi de 1,84%, enquanto o comércio não essencial registrou déficit de 8,97% frente a semana anterior. Entre os dias 27 de setembro e 2 de outubro, o crescimento do varejo essencial foi menor: 0,89%. O não essencial, por sua vez, reduziu as perdas na semana, para uma queda de 3,87%. “Ficou muito claro pelos indicadores recém-publicados pelo IBGE que a tendência, daqui para frente, é não repetir as mesmas taxas de crescimento que nós tínhamos até então. As altas dos últimos quatro meses foram cada vez menos intensas”, diz Fabio Bentes, economista-sênior da CNC. “Por mais que a pandemia tenha ficado para trás do ponto de vista econômico, não podemos dizer que estamos ‘bombando’.”