Economia

Brasil vive uma 'bolha de adimplência' prestes a estourar

Brasil vive uma 'bolha de adimplência' prestes a estourar

Os dados do Banco Central não mentem: os bancos vivem a menor média já registrada de inadimplência. Algo histórico. Os números do BC, entretanto, não refletem o contexto que essa queda da inadimplência ocorreu. Por causa da pandemia de Covid-19, o governo tomou uma série de medidas como a permissão dos bancos prorrogarem o pagamento de empréstimos por até 180 dias sem que isso precisasse ser registrado como atraso. Além disso, o auxílio emergencial e as medidas de manutenção de emprego também ajudaram a segurar os índices. As medidas colocaram os bancos no que alguns analistas chamam de “bolha de adimplência”. As próprias instituições, no entanto, já sabem que essa  bolha vai estourar e, por isso mesmo, já fizeram bilhões em provisões para calote para proteger seus balanços. O que é difícil prever é se o calote vai voltar para níveis de 2019 e as provisões serão suficientes ou se a inadimplência vai explodir. A consultoria Deloitte já estima que o volume de comércio de créditos podres, que caiu neste ano, dobre em 2021 em função desta bolha e atinja o valor histórico de 46 bilhões de reais.

A inadimplência vai pegar os bancos pelo não só pelo lado das pessoas físicas, mas especialmente pelo das pequenas e médias empresas. Na avaliação de analistas, haverá um “tsunami” de casos médios de reestruturação. Salvatore Milanese, da Pantalica Partners, afirma que errou quando previu logo no início da pandemia que neste ano o número de recuperações judiciais ultrapassaria os 3 mil casos, mas acredita que é um número que pode se concretizar no próximo ano. Alguns setores da economia como o de turismo, restaurantes e aviação, os mais atingidos pela pandemia, podem puxar a nova onda de inadimplência. Algumas companhias aéreas como a Latam já estão inclusive renegociando dívidas. Mas há também casos de varejistas como Etna e Máquina de Vendas, holding do Ricardo Eletro. 

Um dos mais famosos especialistas em reestruturação de empresas, Ricardo Knoepfelmacher, da RK Partners, que fez a reestrutração da Odebrecht, diz que a onda de IPOs (abertura de capital na Bolsa de Valores) esconde a vulnerabilidade de algumas empresas. Muitas delas antes de partir para o IPO, estavam na dúvida se entravam em recuperação judicial, mas acabaram encontrando o dinheiro de investidores ávidos por retornos maiores no mercado acionário.

O próprio Banco Central diz em seu último relatório de estabilidade financeira que apesar de considerar que 2020 está estabilizado, “a incerteza quanto ao cenário para 2021 continua elevada”. “O cenário deve ficar mais claro conforme as medidas temporárias de combate à crise forem sendo removidas, o que permitirá ter uma dimensão mais precisa sobre os efeitos da pandemia da Covid-19 na inadimplência do sistema”, diz o BC. Uma pesquisa feita pela autoridade monetária com as instituições financeiras no primeiro semestre mostrava que o risco de  inadimplência está entre as maiores preocupações dos banqueiros, acima do risco político ou fiscal.

Os especialistas na área de crédito da Deloitte, Luis Vasco e Ricardo Marim, dizem que somente a partir do segundo trimestre do próximo ano será possível entender qual será a onda real da inadimplência. No caso de pessoas físicas, o impacto virá do tamanho de desemprego. Muitas empresas seguraram demissões por conta de programas de governo que só se encerram neste fim de ano. Já a expectativa de inadimplência maior vem do setor empresarial, em especial as micro e pequenas. Apesar disso, eles estimam o crescimento do comércio de crédito podre mais por um represamento da inadimplência deste ano do que um crescimento efetivo da inadimplência, além de agregar novos jogadores de mercado como as empresas varejistas que devem começar a vender suas carteiras de crédito podre. Neste ano, o volume de negócios com carteira de crédito podre deve ficar menor que 22 bilhões de reais. No ano passado, foi de 33 bilhões e deve saltar para cerca de 46 bilhões no ano que vem. 

Pelas regras do Banco Central, os bancos precisam fazer provisões para pagamentos duvidosos na medida em que seus clientes deixem de pagar um empréstimo. A cada 30 dias de atraso, este percentual de provisões vai crescendo até que chega num momento em que é preciso provisionar 100% daquele empréstimo concedido. Estes atrasos vão formando o índice de inadimplência. Neste ano, até setembro, este índice estava em 2,4%, o valor mais baixo da história. Isto aconteceu justamente porque o BC permitiu que os bancos prorrogassem o prazo de pagamentos, o que significa que quase nada virou inadimplência, tudo foi jogado para frente e o índice ficou distorcido.

“É uma bolha de adimplência temporária. Ter neste momento o índice mais baixa de inadimplência de todos os tempos não é sustentável”, diz Carlos Macedo, especialista em bancos e que escreve relatórios de análise para a OhmResearch. Pelo lado dos bancos, no entanto, ele entende que eles estão bem provisionados. Ou seja, uma onda de inadimplência não vai atingi-los agora. Só entre abril e junho os grandes bancos provisionaram cerca de 30 bilhões para calotes. A cada real provisionado, o lucro dos bancos é afetado.