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Quem diria que o cinema ainda precisava de Toy Story 4

Quem diria que o cinema ainda precisava de Toy Story 4

Toy Story 3 encerrou, em 2010, o ciclo de aventuras de Woody, Buzz e cia. quando "sua criança", Andy, partiu para uma nova vida como um jovem adulto. Rios de lágrimas acompanharam a certeza de que a primeira aventura da Pixar havia se despedido como uma trilogia redondinha, profunda, colorida e emocionante. Retomar a série? "Um risco desnecessário", pensei. Eis que Toy Story 4, antes um ponto de interrogação gigantesco, revela-se como o filme que a gente nem sabia que precisava, especialmente quando o mundo real levanta sua cortina cinzenta. O cinema pode ser tanto um refúgio quanto um espelho. E não existe momento errado para nos lembrar do poder transformador de boas histórias, de lembrar os laços invisíveis que nos unem, de como viver é compreender as engrenagens complexas de uma máquina simples. Fato: às vezes, o fim de uma história marca tão somente o começo de outra jornada.

A turma da própria Pixar sabia que estender o universo de Toy Story era abrir espaço para manchar uma narrativa perfeita. Mas foi Andrew Stanton, diretor de Wall-E e Procurando Nemo, quem insistiu no desafio – até porque arte não é feita de brisa, e sim de tormenta! A questão, executada pelo time liderado por Josh Cooley (veterano da Pixar que dirige aqui seu primeiro longa), foi imaginar que os heróis da série agora encontravam-se em outro ambiente – não mais no quarto de Andy, mas da pequena Bonnie. Nesse ambiente, mergulhado nas lembranças de seus anos com "sua criança" anterior, o caubói Woody (Tom Hanks) percebe que não é mais o brinquedo favorito, e que seu futuro parece estar relegado a ocupar o fundo do armário. A carga dramática, desta vez, vem no subtexto sobre o sentimento de abandono, a dificuldade da auto aceitação, a consciência em ser diferente. Mas é claro que a trama traz um gatilho que coloca a turma em ação, e que Toy Story continua tão divertido, empolgante e emocionante como sempre.

"Como é que eu estou vivo?": Garfinho e seu dilema existencial

Este "gatilho", enfim, é um dos personagens mais intrigantes da trupe de brinquedo – por sua importância na hostória do novo filme, e também pelas questões que sua própria existência levanta. Em seu primeiro dia no jardim de infância, Bonnie está triste e sozinha e pega o material em mãos para fazer um novo amigo: o Garfinho, um garfo de plástico montado toscamente com arame, massa de modelar e um palito de madeira quebrado. Para surpresa de Woody ele ganha vida, e logo reclama sua condição de lixo, recusando-se a se ver como um brinquedo. "O lixo é quentinho", diz, assustado. Depois de ver o efeito que ele tem em Bonnie, porém, o caubói toma para si a missão de proteger o Garfinho e, talvez, explicar a nobre função de um brinquedo na vida de uma criança. É uma adição divertida e fora da curva à série, mas é de coçar a cabeça as implicações de sua própria existência. Afinal, todo objeto no mundo de Toy Story é animado? Ou ele só ganha vida ao ser "adotado" por uma criança? Se for este o caso, a pivetada anda exercendo poderes divinos sem ao menos perceber? Ufa!

É bacana que Toy Story 4, mesmo não trazendo essa questão à frente, também não a deixe totalmente em segundo plano. O dilema existencial de Garfinho é acompanhado pela própria inadequação de Woody, que sem Andy parece ter perdido seu Norte. Seu reencontro com Betty (Annie Potts), a pastora com o cordeirinho de três cabeças que estava ausente do filme anterior (seu sumiço é aqui explicado logo no começo), é o coração da aventura. A ação é concentrada em um parque de diversões abarrotado de crianças e em um antiquário dominado por uma boneca que nunca experimentou o amor de uma criança, que vê em Woody a chance de recuperar anos e anos perdidos. Mas não espere um drama contemplativo com brinquedos discutindo a condição humana. Toy Story 4 é, acima de tudo, uma aventura saborosa que traz o melhor da Pixar, especialmente no desenvolvimento de seus personagens (o Duke Kaboom de Keanu Reeves é genial!) e o ritmo incansável com o qual eles fazem a história avançar. É o mesmo trunfo que o estúdio usou em 1995 com o primeiro Toy Story, anabolizado por quase duas décadas de avanços tecnológicos, resultando em uma moldura de beleza sublime para um roteiro impecável.

O ano de Keanu continua com o glorioso Duke Kaboom!

Esse cuidado com o texto coloca a Pixar, salvo seus poucos tropeços, em um patamar absurdamente acima da concorrência. Recentemente, só a Sony Animation com Homem-Aranha no Aranhaverso conseguiu equilibrar uma trama empolgante, original e emocionante com um visual verdadeiramente revolucionário. A verdade é que o barateamento da animação digital nos últimos anos impulsionou dúzias de desenhos com histórias bobocas e feios de doer. É reconfortante, portanto, ver um trabalho como Toy Story 4, que mesmo mirando no consumo de massa consegue manter a excelência e fugir por completo de fórmulas fáceis. Se existe um segredo, talvez este seja trazer uma reflexão sobre o estado das coisas disfarçada de entretenimento infantil. Um recorte de um momento tão banal e, ao mesmo tempo, tão especial como dizer adeus a um amigo. Sentimento que poucas vezes ganha uma representação tão delicada e tão profunda. Não adianta, por fim, racionalizar o impacto de Toy Story 4: mais uma vez, o alvo não é a mente, e sim o coração.