Vida

Em coletiva no Líbano | Ghosn diz que foi coagido a confessar no Japão

Em coletiva no Líbano | Ghosn diz que foi coagido a confessar no Japão

O ex-CEO da Renault-Nissan Carlos Ghosn disse hoje que foi coagido a confessar irregularidades na empresa pela justiça do Japão e que "nunca deveria ter sido preso". Sem dar detalhes da fuga há duas semanas, ele declarou que "foi a decisão mais difícil da sua vida" e acusou a justiça japonesa de "violar seus direitos".

Em uma coletiva de imprensa em Beirute, no Líbano — a primeira aparição púbica do executivo desde a sua prisão em 2018 —, ele disse que "pela primeira vez desde que esse pesadelo começou poderia se defender livremente".

"Durante 14 meses de sofrimento houve indivíduos vingativos sem escrúpulos na Nissan com apoio de pessoas do Ministério Público de Tóquio. Fico feliz que possa defender meu nome e restaurar minha reputação", declarou o executivo.

Ghosn citou nomes de executivos do Conselho da Nissan que acusou de estarem ligados às autoridades do governo japonês. "Acusações contra mim não têm fundamento. Procuradores vazaram informações falsas para a imprensa e ocultaram provas", disse o brasileiro.

Ele entregou aos jornalistas presentes cópias de documentos com os supostos envolvidos na "conspiração". "Mas, por respeito ao governo do Líbano, não citarei nomes, uma vez que eles poderiam complicar ainda mais o trabalho que as autoridades libanesas enfrentam com o caso", acrescentou.

Fuga e privação de contato com a família

Sobre a fuga, ele não deu detalhes de como chegou ao Líbano, declarando apenas que "foi a decisão mais difícil da sua vida". "Não tive outra escolha que não fosse me proteger e proteger a minha família", disse ele.

"Eu não quero fugir da Justiça. Eu não quero é a perseguição e a injustiça", completou ele dizendo que foi coagido pela justiça a confessar. "Procuradores japoneses me disseram que a situação só ficaria pior se eu não fizesse confissão. Faço o que eles estão mandando ou vou optar pela minha liberdade? As condições permaneceram as mesmas por longos meses. Todos os dias, em 130 dias de detenção, eu lutei pela minha inocência", disse Ghosn.

Durante a entrevista, o ex-CEO da Nissan-Renault mostrou trechos do processo apresentado pelos procuradores e criticou a forma como foi preso e a privação de contato com a família no que chamou de "campanha de difamação".

O executivo relatou que foi interrogado por até 8 horas por dia sem a presença de advogados. "Foram violadas regras dos direitos humanos. O sistema [japonês] é indiferente à Justiça, ao processo e às liberdades fundamentais", declarou o executivo.

Procurador do Líbano quer ouvir Ghosn

Hoje, o procurador-geral do Líbano convocou Ghosn para prestar esclarecimentos amanhã sobre o alerta vermelho da Interpol, emitido pelo Japão, que o acusa de cometer crimes e pede sua prisão.

A agência de notícias estatal do país informou que o procurador também ouvirá Ghosn sobre uma queixa formal a respeito de reuniões com líderes em Israel, que o empresário visitou enquanto chefe executivo da aliança Renault-Nissan em 2008

Histórico do caso

Ghosn foi preso no Japão em 19 de novembro de 2018. Ele foi solto sob pagamento de fiança em março de 2019, após mais de 100 dias detido, e aguardava o julgamento em liberdade.

Ele foi preso novamente em 4 de abril do ano passado devido a novas acusações das autoridades e voltou a ser solto após pagamento de fiança. O ex-CEO da Renault-Nisssan estava à espera do julgamento quando fugiu de Tóquio para Beirute.

Promotores alegam que o executivo fez um pagamento multimilionário a um distribuidor da Nissan em Omã. A empresa japonesa, por sua vez, acusa Ghosn de desviar dinheiro da companhia para enriquecimento próprio.

Ele também é acusado pelos investigadores de ter reportado ao fisco remuneração menor do que a que recebia. Ghosn nega todas as acusações.