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Crítica - Rocketman faz tudo certo ao celebrar a vida hardcore de Elton John

Crítica -  Rocketman faz tudo certo ao celebrar a vida hardcore de Elton John

Elton John tinha 23 anos quando se apresentou pela primeira vez no Troubadour, clube tradicional em Los Angeles. Bastaram os primeiros acordes da matadora "Crocodile Rock" para que o músico, que fazia sua estreia em um palco americano, fizesse toda a plateia cantar, pular…. e flutuar! Ok, a última parte pode ser efeito das drogas que a turma consumia em quantidades industriais nos anos 70, mas é exatamente o tipo de euforia coletiva que permeia Rocketman de ponta a ponta. A cinebiografia de Sir Elton não obedece a nenhuma formalidade narrativa, mistura realidade e fantasia muitas vezes sem apontar onde termina uma e começa outra, e resulta em uma celebração da música de um dos maiores artistas pop do planeta – e também de seus excessos, dos momentos de completo júbilo e das quedas catastróficas no abismo da depressão. É um filme hedonista, 100 por cento gay, realista em seus momentos mais trágicos e completamente rock and roll.

Ou seja, Rocketman é tudo que uma boa biografia musical deveria ser. O próprio Elton John acompanhou a produção de perto e usou sua influência para impedir que algum executivo mais pudico "suavizasse" sua trajetória para conseguir uma censura mais branda. Na prática, o sexo não é sugerido, mas mostrado com fúria; as drogas não são presumidas, mas consumidas em cena com a naturalidade de um respiro; álcool era sorvido como água. Era assim a indústria musical quando Elton ganhou dominou o mundo por boa parte dos anos 70 e 80, e esse lado mais sombrio da fama é parte integral de sua música. Afinal, gênios de verdade cantam o que sentem e mostram quem são – farsantes insistem em dejetos como "juntos e shallow now". Elton John foi verdadeiro à sua história, e Rocketman consegue um recorte brutal, por vezes lúdico, não raro perfeito, de como um astro de verdade é construído – mesmo que ele mesmo possa ser objeto de sua própria queda.

Bernie Taupin (Jamie Bell) e Elton John (Taron Egerton) no começo da parceria que mudou a música pop

Um naco gigantesco do mérito do filme repousa nos ombros de Taron Egerton. Revelado na aventura Kingsman, o ator de 29 anos é uma total e completa revelação. Não apenas pela semelhança física com o astro pop, mas em especial por captar sua fragilidade, o garoto de uma família fragmentada que enxergou na música uma válvula de escape e um modo de exorcizar seus demônios. É como um demônio – um dos dezenas de trajes extravagantes que Egerton usa ao longo do filme, trabalho brilhante do figurinista Julian Day – que o ator surge logo na primeira cena como Elton, sentado em uma círculo com um grupo de apoio, abrindo seu coração para estranhos. A opção narrativa é genial, já que abrevia a necessidade de uma estrutura cronológica e justifica elementos mais fantásticos, como os números musicais que não só ajudam a contar a história, mas também refletem a efervescência criativa na mente do artista.

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E como o assunto é a música de Elton John, Rocketman também celebra sua amizade com Bernie Taupin (Jamie Bell), seu melhor amigo e parceiro musical há cinco décadas, responsável pelas letras que o músico emoldurou com melodias inesquecíveis. O filme estreia a importância dessa relação, ilustrando o quanto Bernie entendia o amigo e conseguia traduzir em palavras as diferentes fases de sua vida. É uma relação fraternal, não romântica, que encontra seu grande momento logo no começo, quando "Your Song", canção que estreia os laços que unem os dois artistas, nasce de maneira quase informal. A biografia deixa claro a co-dependência de Elton e Bernie, e mostra como a carreira do primeiro desabou ao se afastar do segundo. Juntos, eles dominaram o planeta em músicas que despertam a memória afetiva coletiva, como "Goodbye Yellow Brick Road", "Tiny Dancer" e, claro, a própria "Rocketman".

Dexter Fletcher dirige Egerton como Elton John em sua estreia no Troubadour

Curiosamente, a direção é assinada por Dexter Fletcher, que ano passado assumiu o leme de outra cinebio, Bohemian Rhapsody, completando o filme quando seu diretor original, Bryan Singer, recebeu um bilhete azul do estúdio. Em Rocketman fica clara a diferença em visões criativas: enquanto o blockbuster que contou a vida do lendário Freddie Mercury terminou como um novelão, a trajetória de Elton John traz um equilíbrio maior entre seus dramas pessoais e o mundo fantástico despertado por suas músicas. Era exatamente assim a percepção do mundo com Elton John em seu auge: um personagem, um super-herói com diversas identidades, salvando o planeta em sua cruzada para transformar a música pop em festa. E era isso que ele queria entregar ao mundo, um lado colorido e empolgante da vida de um popstar, mantendo sua dor profunda escondida. Rocketman, entretanto, não tem freio ao revirar todas as pedras.

Ainda assim, não é um filme perfeito. John Reid, agente de Elton John interpretado por Richard Madden, sugere um personagem complexo mas logo é retratado como um vilão unidimensional, um arquétipo do sujeito sem caráter que se aproveita de um gênio fragilizado. O casamento com a engenheira de som Renate Blauel, um dos momentos mais impactantes em sua vida, representando a vontade de formar uma família no auge de sua dependência de álcool e drogas, é representado em duas cenas que não tomam cinco minutos. E falta a Rocketman aquele momento de catarse coletiva, representado tão bem em Bohemian Rhapsody com o show do Queen no festival Live Aid. Mas são pecados menores em um musical superlativo que consegue colocar em filme a obra de um gênio moderno, a celebração da música e a vida de um homem que olhou para o abismo, não cedeu a ele e transformou sua dor em arte. Com ele, assim como a plateia no Troubadour no começo dos anos 70, nos tornamos mais leves que o ar.

Assista ao trailer de "Rocketman"

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