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Construção de centro de eventos para corrida de galgos gera críticas no RS

Construção de centro de eventos para corrida de galgos gera críticas no RS
Ativistas denunciam maus-tratos, abandono de galgos feridos e uso de anabolizantes nos animais (Adobe)

A Prefeitura de Bagé, no Rio Grande do Sul, anunciou a construção de um centro de eventos ao lado da pista de corrida do Parque do Gaúcho Dimas Costa, na qual criadores da raça forçam os animais a competir. A obra, que daria mais conforto e entretenimento aos tutores dos cães, gerou revolta entre defensores dos animais.

Nas redes sociais, a secretária de Cultura e Turismo de Bagé, Anacarla Oliveira, anunciou o início da obra, com inauguração realizada na última sexta-feira (14). Segundo ela, o centro de eventos “abrigará um importante espaço que proporcionará conforto, viabilizando ainda mais os eventos e atividades turísticas culturais e esportivas que lhe é peculiar”.

Moradores da cidade e defensores da causa animal discordam. Na opinião deles, explorar galgos em corridas não é cultura, tampouco esporte. “Um absurdo a prefeitura investir em exploração animal. Deveriam investir em políticas públicas favoráveis aos animais. Corridas de galgos não são cultura nem esporte, são crueldade e exploração de animais”, escreveu uma internauta em resposta à secretária.

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A publicação de Anacarla Oliveira reuniu dezenas de comentários insatisfeitos com a construção do centro de eventos. Além de críticas às corridas de galgos, os internautas reclamaram da falta de políticas públicas para os animais em Bagé e denunciaram o abandono de galgos feridos e doentes nas ruas do município.

“Quantos galgos com patas quebradas nas ruas e com tumores em Bagé? Você sabia que a corrida de galgos foi proibida em outros países? Isso é exploração e crueldade com os animais. A causa animal do país está focada em Bagé”, escreveu uma internauta. “Quanto a prefeitura tem feito pelos cães em Bagé? O canil municipal está lotado e sem recursos, vários galgos saíram de lá para adoção em outros estados!! Vergonhoso falar que isso é cultural e a prefeitura estimular. Estão vindo galgos de países vizinhos, onde é proibido o ‘esporte’, para correr aí, tudo sem fiscalização sanitária. Absurdo! Na contra mão do bem-estar animal”, afirmou outra usuária do Facebook.

Apenas oito países do mundo permitem as corridas de galgo, incluindo o Brasil. No entanto, um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados tenta proibir a prática em território brasileiro. Em Bagé, a pista de corridas foi construída em 2012 no Parque do Gaúcho. O local recebe visitantes de várias cidades e até de outros países, como Uruguai e Argentina, onde é proibido explorar galgos em corridas. Eventos semelhantes são realizados nas cidades gaúchas de Santana do Livramento, Quaraí e Uruguaiana.

Após o prefeito de Bagé, Divaldo Lara (PTB), assinar a ordem de serviço na última sexta-feira (14), as obras tiveram autorização para começar. Um investimento de R$ 251 mil foi anunciado pela prefeitura para a construção de uma estrutura de 150 metros quadrados com salão, cozinha, banheiros e churrasqueira – que deve estar finalizada em quatro meses.

Protetores de animais denunciam treinamentos exaustivos e anti-naturais, maus-tratos, uso de anabolizantes, abandono de galgos doentes e feridos e a realização de apostas clandestinas durante as corridas. Apesar de negarem maus-tratos, os criadores admitem realizar apostas.

Em entrevista ao jornal GaúchaZH, a presidente do Núcleo Bajeense de Proteção Animal, Patrícia Coradini, informou que 60 galgos foram resgatados em Bagé no último ano. Segundo ela, a maior parte dos cachorros foi encontrada com fraturas ou ferimentos causados pelas corridas. O uso intensivo de anabolizantes também levou ao resgate de cães com atrofia muscular.

“Aumentou demais nos últimos anos o número de galgos abandonados. Muitos criadores não têm dinheiro para o tratamento ou simplesmente largam o cachorro porque o animal não consegue mais correr. É comum a gente chegar segunda-feira e encontrar um cão com a pata quebrada na porta do núcleo”, contou Patrícia.

Galgo resgatado após ser explorado em corridas (RSPCA NSW)

Além das denúncias de maus-tratos e abandono, a vereadora e protetora de animais Beatriz Sousa (PSB) contesta o uso do Parque do Gaúcho por criadores de galgos sem autorização formal por meio de convênio ou parceria.

“Em 2017, pedi informações à prefeitura sobre o uso do espaço por uma suposta associação de criadores, mas jamais recebi resposta. Vou fazer uma representação ao Ministério Público”, disse.

Os recursos destinados à construção do centro de eventos foram obtidos junto ao governo federal através de emenda parlamentar do deputado Dionilso Marcon (PT). Ao GaúchaZH, Marcon afirmou que não sabia que a obra tinha como objetivo beneficiar criadores de galgos.

“Sei que eles têm eventos internacionais lá em Bagé com os galgos. Me pediram a emenda e eu dei, mas não sabia que era específica para isso”, afirmou.

No Instagram, o grupo Fox Vegan criticou as obras e afirmou que os galgos são vítimas “de humanos que só pensam em lucros, explorando, violentando, maltratando, drogando e depois abandonando à morte”.

“A população reclama que o dinheiro seja usado para a proteção animal de cães e gatos abandonados, precisando de abrigos, alimento e vacinas”, reforçou o grupo.